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“Não viver apenas da música é uma opção nossa”


São uma das bandas mais duradouras do rock puro e duro feito dentro do rectângulo mais ocidental da Europa – e à beira mar plantado. Os anos 80 foram deles, Braga ficou no mapa graças a eles, o rock duro e visceral conheceu neles os maiores embaixadores e persistiu um culto à volta do seu vocalista, Adolfo Luxúria Canibal. Hoje, em pleno século XXI, com o ano de 2010 a correr a bom ritmo, os Mão Morta já não se deixam levar pelos desvarios de outrora e têm uma atitude mais calma perante a vida. Com novo disco, o mote parfeito para uma conversa com Adolfo Luxúria Canibal. Há um “Pesadelo em Peluche” pronto a atacar. Está nas lojas desde meados de Abril.

Este novo trabalho, “Pesadelo em Peluche”, serve para coroar 25 anos de vida. E entrou já directamente para o terceiro lugar da tabela de vendas a nível nacional.

Adolfo Luxuria Canibal - Sim, parece que sim. Mas é significado de outra coisa, que as vendas hoje em dia são tão baixas que os Mão Morta, mantendo o nível de vendas, que não subiram particularmente, deixam os lugares habituais e sobem ao terceiro...

Só não conseguiram bater a Madonna e o Pedro Abrunhosa, que ocupam os dois primeiros lugares. A ver vamos. Comecemos esta conversa pelo palco. Depois do concerto de apresentação, no passado dia 29, em Lisboa, e com 25 anos de palco, ainda se sente algum medo pelas coisas funcionarem ou não?

Sim, claro, muito. Continua a custar, como se fosse a primeira vez. Aliás, deve custar mais porque no início tinhamos aquela inconsciência, e a inconsciência tem esse lado positivo, de se atirar para a frente porque não temos nada a perder. Agora já temos consciência de quando as coisas correm mal, quando as coisas estão mais tremidas, de onde vamos precisar de um som muito limpo. Quando temos esse peso torna-se cada vez mais difícil e não nos liberta dessa angústia que se apodera de nós antes de subirmos a palco. Mas depois passa.

Quando se chega ao palco...

Depois é um turbilhao. Angústia é o pensamento. Quando chegas a palco deixas de pensar, não tens tempo para ficar a meditar se vai correr mal, já está tudo a andar, se correu mal já foi para trás, vai-se para a frente e logo se vê. Aliás, quando a pessoa pensa no que vem a seguir, o que está a ocorrer no agora já está a correr mal. Uma pessoa tem de pensar, acima de tudo, no momento.

O último album de originais é de 2004 (Nus), mas sentes que agora é diferente?

A pressão é idêntica, nós é que nos fazemos pressão.  No início, por altura do segundo álbum, a pressão era mais mais externa, principalmente no segundo. Existia a ansiedade de ver se íamos corresponder. Mas depois a coisa é uma máquina, uma pressao a nós próprios, com o intuito que as coisas resultem bem, os concertos e os discos sejam bons.

O vosso concerto de apresentação foi no passado dia 29. As críticas foram muito positivas a esse concerto. Respirou-se a essência dos Mão Morta lá...

Sim, sim. Aliás, não sentiram mais nada do que Mão Morta (risos)

Mas o tempo passou, a idade começa a pesar...

Sim, é verdade, os Mão Morta ficaram mais velhos mas não ficaram diferentes por causa disso. No ano passado fizemos a “Ventos Animais”, uma tournée nacional com os temas antigos, mas uma tornée de rock n’roll. Foi a primeira lavagem da mente depois do [Os Cantos de] Maldoror, e correu muito bem, as pessoas sentiram lá Mão Morta. Não eram os mesmo que se ouviam nos anos 80, mas em termos de energia e tensão as coisas não mudaram.

Mas olhando para trás, há temas que são obrigatórios nos vossos alinhamentos dos concertos?

Sim, claro. Há um tema que nunca mais saiu do nosso alinhamento.  Faz parte do terceiro album de originais, O.D., RAINHA DO ROCK & CRAWL (1991), que é o Anarquista Duval. Há temas que são clássicos do primeiro álbum, tipo o “Oub’lá”, e os mais recentes, “Cão da Morte”, nos últimos tempos temos tocado também o “Budapeste” ,“Barcelona”, “Amesterdão”.

A influência de Ballard


Este “Pesadelo em Peluche” assenta grandemente num nome incontornavel: JG Ballard. É um gosto pessoal teu?

Toda a gente na banda gosta do Ballard, o Miguel (Pedro) é um fanático, eu já tinha trabalhado coisas do Ballard nos Mécanosphère, mas nos Mão Morta é a primeira vez que avançamos tão directamente para o universo de Ballard.
 
Mas este é um imaginário que podemos conferir de que forma?

Esse imaginário é visto através do livro “Atrocity Exhibition” – Feira e Atrocidades, em português, que é um livro de escrtia experimental, que não tem uma narrativa com princípio, meio e fim. É uma narrativa aparentemente desconexa, pequenos parágrafos que o Ballard chamava novelas condensadas e em que cada uma delas conta uma espécie de história em que o personagem é sempre o mesmo, apesar de mudar de nome. As histórias andam à volta de um “destrambelhamento” psicológico face a uma acta de interferências da psique no personagem e dos personagens à volta e que tem a ver com o lado tecnológico do mundo moderno, da linguagem de massas, da iconografia de massas, da forma como a iconografia fica gravada no nosso cérebro, como a nossa psique resolve todas essas gravações e registos e como percepciona de forma diferente a realidade ou falta dela. Pegamos nessas micro narrativas e fizemos outras considerações que no fundo representam cada uma das canções.

Quando te vês envolvido por esta atmosfera?

Há uma história muito conhecida para te mostrar o que é este universo Ballard. Quando foi a morte da Princesa Diana, com todos os condimentos: uma celebridade, por um lado, um affair sexual clandestino, um acidente de automóvel a alta velocidade com carro de luxo, a imagem desfigurada da celebridade que o acidente provocou, a junção da carne com a máquina e o corpo moribundo, com os próprios dejectos de metal e vidro, a difusão à escala planetária e a difusão emotiva que suscitou à escala planetária. Isto é Ballard, isto é o que Ballard encena nos seus livros.

Cada tema deste novo disco é, portanto, uma micro narrativa?

É uma micro narrativa inspirada pelas micro narrativas de Ballard. Ou pelos seus comentários, porque a edição de 1990 do livro vem acrescentar um lado mais experimental à edição de 69. Porque vem acrescentar outras pequenas micro narrativas com o mesmo subtítulo em que o Ballard comenta essas narrativas às vezes sem ligação directa.


25 anos: a surpresa

Ainda hoje, ao fim de 25 anos, são um grupo que gosta de surpreender. Neste caso, quer no título, quer na capa. Vamos por partes, começamos pelo título, “Pesadelo em Peluche”...

Bom, o título tem a ver com todo o conceito que rodeia a ideia de Ballard e do livro em particular. As histórias do Ballard situam-se todas na classe média, uma classe que costuma estar acomodada, em conforto, que anseia melhor, mas está contente consigo. É a esta vida em peluche que se faz referência no título, representada na capa como uma espécie de um émulo da Capela Sistina, depois do seu restauro e das cores adulteradas, com azuis bebés muito vivos e rosas meninas, mas feitas com bebes chorões e balões, com tonalidades infantis, que remete para peluche, conforto, bem estar, o sonho.

Nestes 25 anos foste vendo vários cenários na música a nível nacional, em Braga em particular. Como avalias a situação actual da cidade, em termos de criatividade musical?
Braga está numa fase muito positiva, perdeu alguma visibilidade, durante muito tempo. Em termos de visibilidade houve um grande momento, os anos 80, mas que estava muito reduzida a meia dúzia de pessoas, menos de 50 pessoas. Depois houve uma fase de grande dispersão. O fenómeno de coisa colectiva deixou de existir. Os estúdios do 1º de Maio vieram dar essa ideia de colectivo, músicos que nao se conheciam começaram a conviver no mesmo espaço, formar novos grupos. Os peixe:aviao são um bom exemplo disso. Braga tem essa visibilidade outra vez, com bom trabalho criativo, discos lançados, as coisas têm sido bem recepcionadas.

Insisto no tema principal desta conversa: 25 anos é mesmo muito tempo...

(risos) Efectivamente não há muitas bandas que durem 25 anos. Apesar de não ser um caso isolado, é um caso acima da média e do habitual.

No entanto, o mais curioso seria sobreviver apenas da música...

Mas aí ainda estamos no dia zero, no mês zero, no ano zero. (Risos) Era possível, mas isso é uma opção nossa. Viver da música é possivel, há muitas bandas que vivem [da música] em Portugal, e se quisessemos até conseguiamos fazer, mas não queremos. Primeiro, porque iria adulterar o que nós fazemos, iria tirar a liberdade de fazer um disco de canções curtas, mesmo que as pessoas não gostem. Porque só obedecemos a nós próprios.

Daniel Vieira da Silva
 
 
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