Manso Preto ficou conhecido pelos portugueses como o primeiro jornalista a ser condenado a prisão, em 2002, por se ter recusado a revelar o nome de uma fonte confidencial. Acabaria por ser absolvido, alguns anos depois, mas garante que, desse tempo, ficaram marcas.Anos depois, José Luís Manso Preto veio, pela primeira vez, à Universidade do Minho (UM) a convite do Grupo dos Alunos de Ciências da Comunicação da Universidade do Minho (GACCUM) para ser orador nas XIII Jornadas de Ciências da Comunicação. O jornalista integrou o painel em que se debateu a censura no jornalismo e que contou, também, com a presença do Presidente do Sindicato dos Jornalistas, Alfredo Maia, com os jornalistas Raquel Madureira e Samuel Silva, e com o docente e investigador da Universidade do Minho, Joaquim Fidalgo.
Esta foi a primeira vez que veio à Universidade do Minho. Fê-lo para ser orador nas Jornadas de Comunicação. Que tal foi a experiência?
Embora já não seja a primeira vez que tenha sido convidado como orador em jornadas universitárias ou outros ensinos superiores, a verdade é que, à UM, foi a primeira vez! Para mim, é sempre muito gratificante saber que se lembram de mim e que, de certo modo, reconheçam o trabalho que tenho desenvolvido a nível profissional. Além disso, sinto uma emoção e uma satisfação muito grande ao estar no meio de futuros colegas. Quem sabe, um destes dias tenha de trabalhar com algum daqueles ainda alunos!
Cada vez mais se ouve falar em falta de liberdade de imprensa. Considera que, em Portugal, existe falta de liberdade de imprensa? Existe a tentativa de controlar o trabalho dos jornalistas?
Há uma tentativa subliminar de tentar silenciar e/ou amedrontar os jornalistas e isso tem vindo a agravar-se! E cada vez mais os jornalistas sentem isso na pele, sejam por estes métodos ou por pressões de interesses vários que se movem em torno dos proprietários e administrações. Como disse na minha intervenção nestas jornadas da UM, a liberdade de imprensa é, na realidade, a capacidade que nós temos de resistir e escrever aquilo que alguns têm medo que se saiba!
É fã do jornalismo de investigação, que não é, de facto, uma aposta dos media portugueses. Que razões encontra para esse facto?
Comecei muito cedo a gostar da área de investigação e, como me considero uma pessoa frontal e com preocupações sociais, enveredei por um tipo de jornalismo que reconheço não ser o mais cómodo, mas antes muitas vezes altamente perigoso, conflituoso em termos de processos judiciais, mas que acaba por nos dar uma adrenalina enorme e nos dá uma satisfação enorme quando temos consciência que fomos o mais longe possível em termos de investigação que se possa escrever.
Pegando em todo o seu caso, se fosse hoje, a sua atitude voltaria a ser a mesma? Ou seja, voltava a ser fiel ao Código Deontológico?
Obviamente! Nunca, mas nunca cheguei a pôr em causa uma conduta profissional com a qual sempre concordei e – notem – qualquer jornalista tem de assinar num compromisso de honra.
Durante o tempo em que não saiu a absolvição [demorou cerca de três anos], o que é que lhe custou mais?
Não poder trabalhar em liberdade como sempre trabalhei e, ao mesmo tempo, mas agora por razões muito íntimas, uma enorme revolta por ter dedicado mais de 20 anos na luta e denúncia do narcotráfico e ver como o poder judicial, ou melhor alguns dos seus protagonistas, me estava ‘grato‘ tentando violentar a minha consciência profissional ‘atirando-me‘ para trás de umas grades! Bem sei que foram umas horas, mas poderia ser muito mais tempo não fosse a pronta intervenção do Sindicato dos Jornalistas, dos seus advogados e da enorme onda de solidariedade de colegas que me conheciam mas também alguns que, esses sim, eram para mim referências! Não só colegas portugueses, como de muitos outros países, uns em nome individual, outros que se movimentaram e influenciaram as organizações internacionais congéneres do nosso Sindicato!
Naquele momento, sentiu-se apoiado, quer pelos pares, quer pelo Sindicato?
Desde o primeiro momento! A juíza autorizou-me a fazer os telefonemas que entendesse e o primeiro que fiz foi para o Sindicato. Ninguém queria acreditar. Pensavam que eu estava na brincadeira...
Passou-lhe, em algum momento, pela cabeça revelar a identidade da fonte?
Jamais! E posso revelar que no dia anterior, sem me passar pela cabeça o que me aguardaria, fui ao Hospital de Viana do Castelo, aos Cuidados Intensivos, visitar o meu pai que estava em coma após ter sofrido um AVC. Quando fui detido, pensei muitas vezes nele e se o voltaria a ver vivo.
Olhando para trás, acha que a sua carreira tomou um rumo diferente devido a todo esse problema?
É um dilema que tento vencer pois sou confrontado constantemente com algum receio em escrever o que consegui investigar. Isto porque a legislação, em meu entender, agravou-se ainda mais. O jornalista que deve ser visto como um profissional qualificado que tem o direito e dever de informar, muitas vezes é tido por certos sectores do poder político como uma … ameaça! Quem não se lembra de um conhecido político e hoje gestor que disse que ‘quem se mete connosco … leva ‘.
Estiveram muitos alunos a assistir ao painel que anseiam a seguir uma carreira no jornalismo. Que conselhos pode dar a esses mesmos alunos?
Que sejam sempre firmes no respeito pelo Código Deontológico dos Jornalistas pois, desse modo, cada um deles vai desempenhar conscientemente o seu direito e dever de informar. E não há nada melhor e mais gratificante como estarmos bem com as nossas consciências.
Considera-se uma referência para eles?
De modo algum! Admito, porém, e negar isso seria hipocrisia da minha parte, que vejam em mim alguém que, num momento particularmente difícil, soube dizer “Não!” mesmo sabendo que corria o risco de ser detido por tempo indeterminado, em defesa da sua palavra para com uma fonte que me pediu a confidencialidade e, por isso, confiou em mim! O nosso Código Deontológico pode não ter força legal, mas tem princípios e valores dos quais nos devemos nortear.
Daniel Vieira da Silva










Ultrapassado que está metade do mandato de António Cunha à frente da reitoria da Universidade do Minho, o reitor faz um balanço positivo do que foi feito e abordou temas quentes na actualidade universitária.

