A criação de um código para daltónicos surgiu da ligação entre a comunicação e o vestuário. Mas para Miguel Neiva este código é transversal, sendo fundamental em três áreas: material didáctico, saúde e transportes. A sua principal preocupação foi criar um código que ajudasse a inclusão dos daltónicos na sociedade, sem que sentissem o seu problema como uma deficiência. Licenciado em Designer, Miguel Neiva confessa que o projecto lhe rouba muito tempo, mas admite sentir-se grato pelo reconhecimento do seu trabalho. O projecto foi já aceite pela comunidade científica, mas para o designer tem ainda muito caminho pela frente. Quem é o Miguel Neiva?
Sou natural do Porto e tenho 41 anos. Sou licenciado em Designer, há quase vinte anos. Fiz pós-graduação e mestrado na Universidade do Minho em Design e Marketing. Tenho um atelier e trabalho em design já desde essa altura. Estou a dar aulas no Mestrado de Comunicação e Moda na Universidade do Minho desde o final de 2008, depois de ter feito a defesa de tese.
Onde tirou o seu curso?
Tirei o meu curso de Design aqui no Porto [Matosinhos], na ESAD. Estive sempre ligado ao meu atelier. Depois estive a dar aulas de Design no curso de Design e Moda aqui no Porto e, passados uns anos, quis voltar a estudar. Pensei fazer um curso, outra licenciatura em Design Industrial, quando tive conhecimento do mestrado na Universidade do Minho. Como estava ligado, em termos de formação de aulas que dava, à moda, tive conhecimento desse mestrado em Design e Moda da Universidade do Minho, que era promovido pelo departamento de Engenharia Têxtil. Achei que era uma área interessante e fui fazê-la. A ideia surgiu daí, isto em 1999.
Surgiu então a ideia de criar depois na sua tese de mestrado este projecto à volta do daltonismo. Como surgiu esta ideia? Porquê daltonismo?
Quando eu fiz a pós-graduação, isto em 1999/2000, no fim tínhamos que escolher um tema para defender a nossa tese. Na altura, a universidade apresentou-nos uma lista de possíveis temas a tratar, todos eles muito ligados com a parte do vestuário, com a parte têxtil, com a Engenharia Têxtil e eu achei que gostava de puxar um bocado ou de levar esse projecto um bocado da minha área de formação que era o Design de Comunicação. Por isso, nenhum daqueles temas me agradou e propus um tema. E a ideia do daltonismo surge porque quis relacionar a comunicação com o vestuário. Surgiu a ideia de criar um código, porque tinha de referência da minha infância na escola um colega daltónico. Sentia que ele sofria pelo facto de ser daltónico. Quando ele e o irmão se chateavam, o irmão trocava-lhe as meias e ele ia com uma meia de cada cor para a escola.
Foi essa a sua fonte de inspiração?
Sim, foi uma referência. Defini o tema, submeti a proposta à universidade, quase que tive que escrever uma tese para justificar o tema escolhido, e foi aceite. Depois não desenvolvi logo o projecto. Tive alguns anos a pensar nele, a imaginá-lo, porque logo percebi que podia ser ou matar algo que não existia. E passados sete anos, voltei à universidade, tive uma reunião, fui à secretaria ver o ponto em que aquilo estava e a partir daí comecei a fazer o projecto.
Acha que esta componente social, que está inerente a este projecto, tornou mais fácil a sua aceitação?
Estamos a falar de uma coisa há dez anos atrás, em 2000, que foi quando eu propus o tema e ele foi aceite. Veio logo aceite por quem o tinha que o fazer. Mas era um projecto num ponto ainda muito conceptual, muito abstracto, não estava nada feito. Só havia a intenção de fazer alguma coisa. Agora, na realidade, este projecto tem uma valência muito mais além do que uma tese de mestrado, porque ele levanta uma questão, apresenta um problema e desenvolve uma solução. Embora essa solução já tenha evoluído muito mais do que aquela que estava representada na tese. Mas isso é fruto da evolução e da vivência diária com este projecto. Obviamente estamos a falar de um projecto de inclusão, numa altura em que já é um tema gasto. Já foi aceite por todos, por isso agora vamos pensar em outro tipo de necessidades e a inclusão é uma delas.
Fale-nos um pouco sobre a tese de mestrado. Que principais conclusões é que saíram dessa tese e que estudos fez junto de daltónicos? Recolheu algumas vivências e algumas necessidades?
Posso dividir isso em três partes, relativamente ao que tive que fazer. Inicialmente, quis estudar ou perceber o que era o daltonismo. Depois de estudar, percebi que não havia cura, que era uma deficiência de transmissão hereditária, por isso, o daltónico nasce e morre daltónico e tem que carregar toda a vida com isso. Fui procurar dados e informação sobre o que era ser daltónico, não o que é o daltonismo, mas o que é ser daltónico. E não há muita informação, por que o daltonismo é uma limitação, uma deficiência que não é visível, e porque não é visível, também não gosta de se mostrar, de se apresentar e de se expor, com esse argumento, com essa limitação. Não há dados oficiais, não há estudos sobre daltónicos, não havia nada do que estamos a falar há uns anos atrás. E até a própria palavra daltónico era muito depreciativa. Quando ia pesquisar a palavra ‘daltónico’, aparecia ‘O árbitro não marcou penalti, por isso deve ser daltónico’, ‘O político fez esta asneira ou aquela, por isso deve ser daltónico’. Tinha tudo uma conotação muito negativa. Mas havia alguns dados oficiosos, que nos mostravam um bocado o que era as percentagens: Estima-se que dez por cento da população mundial seja daltónica.
E foi difícil mexer nesse assunto que era ainda um bocado desconhecido?
Foi muito interessante, porque me sinto a pessoa mais próxima dos daltónicos que há. Eu recebo e-mails todos os dias, com os comentários mais incríveis, a agradecer a ajuda em algumas conferências em que tenho participado sobre isto.
Mas pegando no processo que falava, eu queria fazer um estudo com daltónicos. Mas eu não sabia onde eles estavam, não havia registos, não havia informação. Lancei um repto pela internet a pedir contactos de daltónicos. Não queria saber quem eles eram. Recebi contactos de e-mails de vários países, desde Israel aos Estados Unidos, França, Brasil, Portugal, Argentina de daltónicos que se disponibilizaram a responder ao questionário que eu lhes enviei. Depois dividi esse estudo em quatro partes. Primeiro, tentar perceber o que o daltónico conhece da limitação que tem. E a conclusão que cheguei, isto depois da análise que fiz, é que ele não se interessa, já lhe chega saber que é daltónico. Depois perceber quando é que ele se apercebeu que era daltónico. Geralmente, é na idade escolar, porque é quando se tem o primeiro contacto com a cor. É um constrangimento logo muito grande, porque as crianças naturalmente são “mazinhas” perante a dificuldade que é não identificar correctamente a cor. Depois tentar perceber qual a relação que eles têm entre eles e com as outras pessoas, ao nível de se abrirem sobre essas necessidades, sobre essa limitação. E aí também há um dado muito curioso, porque entre eles, e estamos a falar de uma doença hereditária, ou seja, transmite-se de pais para filhos, quando eu pergunto se eles conversam com outros daltónicos, só 40 por cento é que conversa. Por isso, entre eles não falam muito. Quando eu pergunto se conversam com pessoas que vêem correctamente as cores, 80 por cento conversa sobre o assunto. Mas a questão era se isto era tão constrangedor, como é que eles falam mais com quem vê bem, do que com quem como eles é daltónico? Porque somos nós que instigamos à conversa, ou seja, sem querer ainda estamos mais a criar o constrangimento e a puxar mais para essa situação. Depois quis saber que tipo de dificuldades, constrangimentos e limitações têm não só ao nível da integração social como da profissional, casos que os tenham marcado. E em termos estatísticos é curioso, se pensarmos que um indivíduo nasce daltónico, tem uma vida inteira para criar ferramentas próprias para minorar esse sentimento de dependência de terceiros, de frustração ou de vergonha, mas mesmo assim mais de 40 por cento sente ou já sentiu dificuldades de integração social pelo facto da cor escolhida não ser a melhor. Questões tão simples, do estudo que fiz, de um indivíduo dizer que na praia não conseguia tomar banho, porque não conseguia identificar as bandeiras. Nós vemos normalmente, olhamos para o mar, nem precisamos sequer de olhar para a bandeira. Mas era o factor de confiança que ali estava a falhar. Outra parte era ver como eles se relacionavam com o vestuário: 90 por cento dos daltónicos pede ajuda para comprar roupa, mesmo sabendo da sua limitação. Ou reduzem a paleta de cores deles e usam aquilo que lhes é possível porque controlam, ou então são completamente dependentes de terceiros.
Identificada a necessidade de um código, só faltava saber em que os moldes deveria existir?
Sim, faltava saber como poderia funcionar. Fui estudar os códigos, fui perceber como é que se consegue criar um código que se torne numa linguagem universal. A conclusão a que eu cheguei é que um código, para poder-se comunicar universalmente, é composto por dois elementos base: a forma e a cor. Sendo que neste caso a cor não poderia existir, porque eles não a vêem correctamente, nem a vêem todas iguais, a forma teria não só que trabalhar sozinha, mas também que representar a cor. A ideia foi pegar num conceito que nós trazemos desde a escola, a caixinha de guache que todos nós tivemos e que tinha as três cores primárias, mais o branco e o preto, que o daltónico não vê, ou antes pode ver ou pode não ver correctamente, pode baralhar duas ou não ver uma, mas sabe que se juntar as duas tem os desdobramentos delas. Por isso, foi criado um elemento gráfico que represente cada uma dessas cores e estes elementos gráficos simples, de modo a permitir não ser muito complexa a sua memorização e que lhe deixe um desdobramento muito rápido apenas com esses três elementos. E foi aqui que, como designer, tive a maior guerra, que foi não querer fazer o ‘bonequinho’ o mais trabalhado, porque podia cair no erro ou correr o risco de ele depois não ser percebido. Assumidamente, foi privilegiada a função em detrimento da forma, da estética, para que, através da rosa das cores, a descodificação do código fosse muito fácil, porque ele sabendo vários elementos e sabendo que se juntar o azul com o amarelo tem verde, facilmente retém isso.
Quanto tempo precisa um daltónico para identificar correctamente os códigos?
Ele precisa de perceber o conceito, percebendo o conceito ele não precisa de muito tempo. Porque também não é a questão de no imediato ele ser confrontado com situações que o obriguem a estar certo. Conhecendo os elementos, até pode fixar ou memorizar a paleta toda. Facilmente ele vai integrando o código e vai entendendo-o. Porque o objectivo era que o código tivesse sempre uma conotação positiva e fosse visto como um apoio e não como uma ajuda, para que ele não sentisse o constrangimento de ter que levar isso. Depois, voltando à caixa de guache, se nós integrarmos o branco e o preto, facilmente temos os desdobramentos claros e escuros e aqui surge, e isto já é um trabalho feito pós-tese, é trabalho de investigação, a possibilidade que tem de orientar dezasseis mil cores.
Porquê essas vinte e uma cores da paleta de amostra?
Porque ele precisa de ser orientado. A orientação é que precisa de ser dada e isto é um código de comunicação em situações que a cor é determinante na orientação ou escolha. Mas consegue orientá-lo, porque começam os vermelhos, a certa altura, sabendo que está nos vermelhos, consegue identificar as tonalidades claras do vermelho base ou as tonalidades escuras. Agora, esta orientação está feita porque o daltónico confunde o vermelho com o verde. Quando chegar ao verde, ele já tem a orientação do símbolo do verde, por isso ele sabe que já não está nos vermelhos. Por isso é que ele se consegue tornar capaz de desmultiplicar a identificação das cores.
A CIN foi a primeira grande empresa a abraçar este código?
Quando comecei a pensar na implementação disto e quando tive a certeza que isto era uma ferramenta importante em termos de comunicação, de integração e de inclusão, dividi isto em duas partes. Primeiro conseguir a acreditação e o reconhecimento de várias entidades que o tornariam mais sustentado. Fui à Austrália apresentar o projecto no Congresso Mundial da Cor, ou seja, fui levar à comunidade científica que estuda a cor em todas as áreas. Fui à Austrália chegar à beira desses indivíduos dizer-lhes que havia pessoas que não viam correctamente a cor e mostrar-lhes a solução e eles validaram essa solução. Aceitaram isso como uma ferramenta de comunicação. Por isso, a comunidade científica que ‘acredita’ a cor estava a reconhecer o projecto. Entidades ao nível do Design e Comunicação a mesma coisa. Não só o Instituto Europeu de Design For All, que é Design para a inclusão, reconheceu o projecto, assim como o Centro Português de Design, Associação Portuguesa de Design foram tudo contactos que foram feitos e muitos deles que vieram ter também comigo, porque perceberam e começaram a conhecer o projecto e quiseram apoiá-lo. A própria Associação Portuguesa de Deficientes, (que foi uma situação engraçada), porque eu não queria nunca que este projecto tivesse uma carga negativa e a palavra ‘deficiente’ é muito negativa, tanto que o nome que eu dei a este projecto “Color add’ tem a ver com essa ideia, que era dar-lhe um carácter positivo. Color add, (cor + adição, cor + colorir). Tudo isto para que não fosse nunca constrangedor, mas fosse sempre mais uma ferramenta. Este código é transversal a tudo, ele tem uma aplicação transversal. Agora, há áreas que eu considero com alguma responsabilidade, porque isto já está do outro lado, isto é falado em todo o lado, não só em artigos relacionados com design, relacionados com acessibilidade, relacionados com inclusão, até com a própria Sociologia, Filosofia e Psicologia. Isto já passou para o outro lado. É preciso é a aplicação disto. E há três áreas aqui que eu considero importantes nesta vertente, que é o material didáctico, porque é na escola que surgem as primeiras limitações, as primeiras vergonhas, os primeiros constrangimentos. Outra é nos hospitais. Se nós entrarmos numa urgência de um hospital, é-nos colocada uma pulseirinha no pulso com uma cor que identifica o grau de prioridade ou de gravidade que nós estamos e dez por cento dos indivíduos não têm o conforto psicológico de saberem o estado em que estão. Outra das áreas é os transportes, na orientação. O metro é um exemplo, embora quase todos os transportes tenham a cor como factor de identificação de trajectos e percursos. Vivo aqui no Porto, de vez em quando ando de metro, mas eu não sei o nome das linhas, mas sei as cores. É um actor de desorientação se a identificação da cor não for correctamente feita. São estas as três áreas de referência com alguma responsabilidade, porque até são áreas muitas delas estatais e tem a ver com a formação da sociedade.
Mas eu quero parceiros em todas essas áreas, porque isto é uma coisa que vai funcionar para a comunidade global.
Acredita que isto vai ter uma aplicação e que vai ter um impacto significativo a nível internacional ou está um pouco reticente em relação a isso?
Não, vai ter. Eu não vou dizer que já não tive essas dúvidas, mas nesta área do design, para as coisas funcionarem têm que ser feitas com paixão… É uma actividade que me absorve 24 sob 24 horas. Por isso, este projecto tem, não só o que eu já disse de ter a vantagem de ser um projecto made in Portugal, mas porque é um projecto que não depende de tecnologia, é um projecto de inclusão, daí inovador, não há nada igual no mundo. Mas em algumas fases eu pensei que isto poderia ser difícil. Mas depois da notoriedade toda que este projecto adquiriu com esta apresentação por parte dos media, desde Dezembro de 2008, eu não tenho dúvidas que este projecto estará sempre a evoluir, a melhorar, está aberto a tudo o que sejam inputs e, por isso, os parceiros que eu quero nisto têm de ser parceiros com dimensão, não por serem grandes, mas por terem um know how que ajude a que isto consiga seguir em frente. Porque só há lugar para um.
Não considera que talvez fosse importante a inclusão do próprio Estado?
Este projecto já tem integrado dossiers que têm a ver com acessibilidades e isso é importante. O próprio estado já está envolvido nisto. Estamos a falar da notoriedade que o projecto já adquiriu por ele, não é por mim, porque ele vale por ele. Mas é um projecto que há-de ter uma vida muito maior do que a nossa. O projecto tem que ser ambicioso, mas não pode ser ganancioso nos passos.
Disse que o design lhe rouba 24 horas por dia, dedica-se única e exclusivamente a este projecto neste momento?
Eu gasto hora e meia a responder a pessoas, só relacionadas com este projecto. Gasto, no bom sentido. Criei um site, porque com este projecto obriga, com alguma informação. Só no mês passado foi visitado por mais de 90 países. Criou-se um link no facebook que chegou rapidamente aos 750 fãs em poucos dias. O facebook é um barómetro engraçado, porque é oficioso, as pessoas podem dizer o que lhes apetece, sem ter que ter certos formalismos. Varias entidades se dirigem ao projecto pelos canais normais, mas aqui conseguem antes sondar como é que as coisas funcionam.
Está a vender cara esta ideia?
Não, não se pode vender caro. Está protegido, e só com protecções “estoirei” todo o dinheiro que tinha. Há obviamente uma componente comercial nisto, há obviamente a necessidade de retorno. E isto não é um projecto caro porque é um projecto que funciona através de licenças, como se compra uma licença de um software, através da licença de utilização, que está indexado ao volume de facturação do cliente. Ou seja, uma empresa pequenina, eu não posso privá-la de usar o código. Isto está definido num plano de negócios. É assim, se uma empresa factura 50 mil euros por ano, é capaz de pagar cinco euros pela licença. Se facturar cinquenta milhões, é proporcional. Se isto é um projecto de inclusão, não pode ser limitado só a alguns. Não pode ser um open source, porque os investimentos foram muito grandes, mas tem que ser fácil e que permita a todos não sentirem isso como um custo, mas sentirem sempre isso como um benefício.
Daniel Vieira da Silva





























































































































































































































































































































Ultrapassado que está metade do mandato de António Cunha à frente da reitoria da Universidade do Minho, o reitor faz um balanço positivo do que foi feito e abordou temas quentes na actualidade universitária.

