António Paisana admite que o seu percurso académico e profissional sempre esteve muito ligado à defesa dos interesses dos estudantes. O primeiro Provedor do Estudante da Universidade do Minho reconhece que este será um cargo complicado, dado que se trata de algo de novo no meio académico. Mas, está disposto a ganhar a confiança dos estudantes e a contribuir para um melhor funcionamento da Universidade. António Paisana admite ainda que o facto de ser professor poderá ajudar no cumprimento das suas funções. Tendo já vivido noutros países, como Moçambique e Inglaterra, é em Portugal que se sente melhor e é junto dos estudantes que se sente realizado.Já viveu em três países durante algum tempo, nasceu em Moçambique, passou por Inglaterra durante oito anos e já algum tempo que está a viver em Braga. Sente-se como uma espécie de cidadão do mundo?
Nasci em Moçambique mas saí de lá com seis anos. Lembro-me portanto relativamente pouco dessa parte da minha vida.
Mas não voltou lá?
Não, não voltei e é uma coisa que faço questão de fazer antes de morrer, como eu costumo dizer [risos]. A família parece que não está muito virada para aí. Mas de facto, um dos meus objectivos é regressar um dia, ainda que de todos os irmãos só a minha irmã lá voltou.
Quantos irmãos são?
Somos seis, cinco rapazes e uma rapariga.
Nasceram todos em Moçambique?
Não, houve um que nasceu em Portugal. Eu sou o mais novo. O antes de mim nasceu em Portugal, numa visita que os meus pais fizeram ao país nessa altura e acabou por nascer cá. Depois, regressaram a Moçambique e nasci eu. A vinda definitiva para cá coube naturalmente aos meus pais numa altura em que eu tinha apenas 6 anos. A minha primeira ida para Inglaterra foi também determinada na ocasião pelos meus pais, que entenderam que eu devia partir e ir estudar para outro lado. Isso aconteceu em 1975. Como é que eu me sinto? Sinto-me definitivamente português. Em Inglaterra nunca me senti confortável.
Saiu de Portugal logo após o Abril de 1974. Perdeu então esse período mais quente para um jovem que tinha, na altura, por volta de vinte anos?
De facto acho que vivi uma das épocas mais quentes na mudança de regime. De 25 de Abril de 1974 até Outubro de 1975. Um ano e meio em que muita coisa aconteceu.
O professor teve algum papel interventivo nesse ano que ainda esteve em Portugal?
O 25 de Abril dá-se quando estava a estudar no Instituto Superior de Economia (ISE) que na altura era um dos focos importantes da contestação política estudantil em Lisboa. Antes do 25 de Abril já tinha dado algum apoio a um dos meus irmãos que estava na clandestinidade em resultado da sua actividade e crenças políticas. Depois do 25 de Abril como disse estava no ISE e, por questões de ligação a esse meu irmão, a minha actividade política foi mesmo muito intensa.
Mas chegou a militar em algum partido?
Penso que terei assinado listas de subscrição de candidaturas, na data das eleições. Mas estive no MRPP, não é segredo nenhum.
Muitas figuras públicas passaram por lá, figuras públicas de hoje. Há já algumas figuras públicas que hoje enveredaram por uma carreira política: Durão Barroso, Fernando Rosas são algumas dessas figuras. Destaca alguns momentos que tenha vivido nessa altura, em que tenha acompanhado o percurso deles?
Sim, lembro-me do Durão Barroso na Faculdade de Direito. Penso inclusive que na Faculdade de Direito, a Associação Académica tinha sido ganha por uma lista do MRPP. No ISE havia também uma actividade muito grande deste partido. Lembro-me também de Saldanha Sanches, que era o director do Jornal Luta Popular, e vagamente de Fernando Rosas.
Acabou, de certa forma, por ser afastado de Portugal pelos seus pais. Foi nessa altura, quase que obrigado, a ir para Inglaterra. Foi uma tentativa de o afastar deste movimento revolucionário?
Penso que de facto terá sido essa a ideia, mas há um marco importante. No dia 28 de Maio de 1975, o COPCOM invadiu as sedes do MRPP e sede da Associação Amizade Portugal-China, em que foram presos dois irmãos meus. O Carlos (que entretanto foi candidato à Câmara de Lisboa não há muito tempo) e outro irmão meu, que fazia parte dessa Associação de Amizade na altura. Foram levados para Caxias, para Pinheiro da Cruz e foi um processo muito doloroso para os meus pais. Eles tiveram quinze dias em greve de fome e fui eu que os acompanhei nesse período, como é óbvio. E foi aí que acho que os meus pais pensaram que já chegava de actividade política e era altura para eu partir para outra. E aproveitando o facto da minha irmã e do meu cunhado estarem a fazer Doutoramento em Birmingham, falaram com eles e deram-me uma semana para deixar o país.
E as primeiras experiências em Inglaterra foram marcantes?
Os anos da licenciatura foram um bocado complicados. Em especial o primeiro. Lembro-me de ter entrado na primeira aula e sair sem perceber uma única palavra do que o professor tinha estado a falar. E isto apesar de ter boas notas em Inglês. No entanto, o facto de estar a viver com a minha irmã e o meu cunhado no primeiro ano ajudou-me a adaptar.
Foi aí que conheceu a sua esposa, com quem já está casado há 32 anos? Ela estudava consigo?
Sim, ela estava a estudar Relações Internacionais e eu estava a estudar Economia. Sim, foi no último ano.
O regresso a Portugal, o que o motivou? Alguma coisa o chamou de cá ou veio de livre vontade?
Na altura, não havia União Europeia e eu tinha uma autorização de estudante para estar em Inglaterra no período em que estava a estudar. Quando acabasse de estudar, eu tinha que voltar ao país. E eles eram muito rigorosos nessa questão. E portanto eu tive mesmo que vir embora, não podia lá ficar.
Mas se pudesse optar teria ficado?
Não, vinha logo a correr, aliás como aconteceu posteriormente.
Há um aspecto que suscita curiosidade: a sua passagem pelos Transportes Urbanos de Braga durante cerca de seis anos, na década de 80. Como surgiu e o que lá fazia em concreto?
Eu estava em Inglaterra, porque entretanto por questões familiares havia regressado, e estava a trabalhar numa empresa de Transportes em Harrogate. Surgiu entretanto uma oportunidade para vir colaborar com os Transportes Urbanos de Braga, que tinham sido constituídos há pouco tempo. Houve essa oportunidade e eu, uma vez mais, numa semana fiz as malas e vim para Portugal. Acho que nem perguntei lá em casa se era para ir ou não, fizemos as malas e viemo-nos embora rapidamente. Nunca tinha estado em Braga. Naquele tempo chegar a Braga de carro era uma aventura. De Lisboa demoravam-se oito ou nove horas. A única vez que tinha vindo ao Norte, no meu tempo de jovem, foi para ver o Benfica contra o Leixões, num jogo da Taça de Portugal. Demorei oito horas a chegar a Matosinhos. Aceitei o convite para vir para os Transportes Urbanos de Braga e foram seis anos muito bons.
Mas que actividade exercia?
Era Director de Exploração. Tudo o que dizia respeito à rede, à exploração da rede dos serviços. Lembro-me que na altura com 24 ou 25 anos, me atribuíram a responsabilidade de gerir 70/80 motoristas. Nunca mais me esqueço também da introdução do sistema de Agente Único em Braga. Toda a organização, montagem e funcionamento do sistema foram da minha responsabilidade.
Mais ligado à Universidade do Minho, são conhecidas também as suas actividades. É um apaixonado por futebol de onze, mas principalmente de futsal?
Sim, também do futebol de onze. Mas o grande responsável pela minha ida para o futsal foi o Sr. Adriano, que era motorista da Associação Académica, que era o dirigente da equipa na altura. E foi ele que me convidou e me puxou para esse projecto. E entrei, gostei e já lá vão quinze anos.
Já lá vão quinze anos e, portanto, que faz na equipa?
Sempre fui dirigente, mas faço um pouco de tudo. Gerir pessoas e procurar equilíbrios é complicado.
Esse acompanhamento aos jogadores, também é, de certa forma, uma preparação do que vai fazer no cargo de Provedor do Estudante para o qual foi eleito? Explique-nos um pouco esse acompanhamento. Os estudantes teriam que ter sucesso escolar para poderem integrar a equipa? Como é que geria essa situação?
Na equipa houve sempre muitos jogadores universitários e eu sempre me preocupei com o desempenho académico deles ainda que nunca tenha sido uma regra imposta para pertencer ao grupo. Mas tenho ajudado muitas vezes muitos dos atletas em questões de natureza académica. Informando-os, aconselhando-os, encaminhando-os e falando com colegas meus. A questão é que estes miúdos treinam duas e três vezes por semana e por vezes os jogos coincidem com exames ou com provas orais. Mas sempre se foram conseguindo algumas trocas de datas de avaliação para outros dias.
De certa forma, um papel de tutor no apoio a esses alunos?
Sim, sem dúvida.
Esse acompanhamento que já fazia na altura, o cargo de tutor que não era oficializado mas que acabava por desempenhar, é isso que espera para o cargo de Provedor de Estudante?
As funções do cargo de Provedor estão claramente definidas no regulamento. Passam, de facto, por promover e defender os interesses dos estudantes e, também, por ser mediador em questões entre os estudantes e a universidade. Portanto, o cargo de Provedor passará também por aí.
Mas eu vejo que passa também por constatar o seguinte: existe um conjunto de regras, regulamentos, procedimentos e políticas que quando aplicadas têm um elemento de imprevisibilidade sobre o seu efeito. Os estudantes podem percepcionar ou sentir que algo de negativo está a acontecer na aplicação dessas regras e em resultado sentirem-se injustiçados. E isso abrange todos os órgãos da universidade, todas as unidades orgânicas e todos os serviços. Cabe ao Provedor, na minha opinião, numa primeira fase, ler ou ouvir o que os estudantes têm a dizer. Cabe-lhe analisar o contexto da ocorrência, avaliá-la em termos da sua relevância e cabe-lhe actuar. E a actuação pode ser muito diferente, pode assumir diversas formas. Poderá por exemplo passar por informar, aconselhar, encaminhar ou intervir. É evidente que, em resultado desta actividade, poderão surgir padrões de comportamento que justifiquem sugerir alterações ao sistema de funcionamento da Universidade. Portanto, também poderá caber ao Provedor fazer recomendações.
Terá sempre uma força moral muito grande, uma espécie de “magistratura de influência”?
Há-de ser sempre a procura de soluções em que todos ganhem. Não se deverão gerar situações do tipo win/loose. Antes, deverá haver uma procura de soluções do tipo win/win. Porque situações de conflito ou sentimentos de injustiça afectam o desempenho, provocam desgaste e afectam a produtividade neste caso dos estudantes. No entanto o Provedor vai ser apenas mais uma pessoa a ajudar naqueles que são objectivos comuns a todas as unidades e serviços da Universidade que é o de proporcionar boas condições e um meio académico propício ao bom desempenho dos estudantes.
Todos os aspectos da vida académica podem ser dirigidos a si, seja de que área for? Lembro-me que foi algo mediatizado no ano lectivo passado e também este ano, algumas queixas de alunos que queriam fazer alguma actividade política dentro das instituições e que não lhes era permitido. Isto também pode fazer parte das queixas do Provedor?
Podem apresentar queixas sobre quase tudo. No entanto, caberá ao Provedor, numa primeira fase, perceber se são relevantes ou não ou se têm mérito para prosseguir com alguma acção. Mas isso vai depender de tudo. Não é possível dizer a priori que tipo de atitude é que tomaria, teria que analisar o caso.
Em alguns aspectos não pode haver uma sobreposição, digamos, entre as funções do Provedor e da própria Associação Académica? A Associação Académica também tem que defender os interesses dos estudantes.
A Associação Académica é uma instituição que tem mais de 30 anos de existência e que representa os estudantes. Sempre estive muito perto da Associação Académica e esta continuará a ter o seu papel, como é óbvio. Eu sou apenas mais um. O cargo de Provedor não é para limitar a acção da Associação Académica na função que tem na defesa dos estudantes. Haverá muitas áreas e competências que deverão funcionar em conjunto para encontrar as melhores soluções para os estudantes. A única coisa que interessa e que é relevante aqui é, exactamente, defender os interesses dos estudantes numa perspectiva de melhorar a qualidade da Universidade do Minho.
Terá que existir então uma coordenação entre o provedor de Estudantes e a Associação Académica neste processo que acaba de descrever?
Penso que existirá sempre que for necessário. E pode partir de qualquer das partes, como é óbvio.
Existem algumas vozes dentro do seio académico que levantaram algumas questões relativas às suas ligações à própria Associação Académica e que o apelidaram, de certa forma, como o Provedor da Associação Académica e não o Provedor dos estudantes. Como é que reage a estas vozes discordantes que surgiram noticiadas?
Não gostaria de me pronunciar sobre o caso em particular. A pessoa que o disse terá as suas razões e é livre de pensar aquilo que afirmou. No entanto, se está em mim, se é minha maneira de ser e se o meu percurso sempre foi junto dos estudantes numa perspectiva de defender os seus interesses, e se ao longo destes mais de 30 anos a instituição que os tem representado é a Associação Académica, é com muita honra que vejo o meu nome a ela associado. Aliás, sou sócio honorário por alguma razão. Portanto, não vejo qual é problema de isso acontecer. Agora, o posto é diferente, tenho uma total independência de actuação dentro da Universidade. E a Associação Académica vai continuar a ser um parceiro importante nesta função.
Ainda assim, apesar destas vozes discordantes, foi eleito com 14 votos a favor, uma larga maioria no Conselho Geral. O que o levou a ter esta disponibilidade para assumir o cargo de provedor de Estudante? Que motivações é que teve?
Acho que são aquelas que eu disse há pouco.
Não há propriamente uma candidatura. É algo que tem que ser apresentado por alguém e por estudantes também?
Tem que ser subscrito por pelo menos dois estudantes e ter o apoio de, pelo menos, 20 por cento dos membros do Conselho Geral.
Não houve da sua parte uma iniciativa própria, porque também não é esse o modo?
Não, nem isso está na minha maneira de ser. Eu nunca pedi nada para mim. Aliás as pessoas que me conhecem sabem que nunca pedi nada para mim, peço sempre tudo para os outros. Acontece que, na altura, os estudantes abordaram-me e disseram-me que estavam a pensar subscrever o meu nome e arranjar apoios no Conselho Geral para chegar aos 20 por cento.
Mas ficou surpreendido com essa abordagem?
Se calhar não, porque as pessoas conhecem-me e sabem, no meio estudantil, qual tem sido o meu percurso.
Sempre houve uma proximidade grande com os estudantes da Universidade do Minho?
Penso que sim. Mesmo enquanto responsável pelos projectos de ensino.
Agora este cargo que assume incompatibiliza algumas das outras actividades que mantém na Universidade do Minho. Como pensa gerir essa situação?
O provedor é um cargo a tempo inteiro e, nesta fase inicial, vai ser muito exigente, porque não existe nada. É construir um processo, enfim, um novo cargo. E tem muitas coisas que vão ter que ser pensadas e construídas rapidamente.
Mas tem algumas referências, ou seja, em algumas universidades portuguesas já há essa experiência relatada?
Em algumas universidades portuguesas já existe o cargo de Provedor do Estudante há algum tempo. Mas o conceito de Provedor tem origem na Suécia em 1809. A palavra significa representante do povo. Porque o rei tinha sido raptado e o parlamento sueco entendeu que devia haver alguém que representasse o povo para tratar alguns problemas. E depois começou-se a espalhar pela Escandinávia. E a primeira grande universidade americana a ter um Provedor foi a Universidade de Michigan, que criou o cargo em 1967. E hoje em dia já há mais de duzentas universidades nos Estados Unidos e Canadá. Já há muita coisa escrita, muitos gabinetes organizados. Não é uma questão de copiar o que existe, mas de adaptar à realidade da Universidade do Minho.
O que vai mudar na sua vida a partir de agora? Vai ter que deixar de dar aulas, porque é um cargo a tempo inteiro?
Penso que poderei não dar aulas mas que não poderei exercer nenhum cargo de gestão dentro da universidade. No entanto, isso caberá ao Provedor decidir o que vai fazer. Eu vou continuar a dar algumas aulas, porque estou envolvido num projecto de Doutoramento que vou ter que continuar a acompanhar e mais uma outra Unidade Curricular. Relativamente aos postos de gestão, neste momento sou Director do Centro de Investigação CITEPE e também sou o Director do programa Doutoral Engenharia e Sistemas e vou, com certeza, ter que passar a pasta destes dois cargos.
O mandato que agora inicia estende-se por quanto tempo?
Pois, eu neste momento sou Provedor eleito, ainda não tomei posse. Os mandatos são de dois anos, com possibilidade de renovar por igual período. Portanto, têm um limite de quatro anos.
Daqui a dois anos, quando acabar este seu mandato, que balanço espera fazer do que foi feito e daquilo que tenha mudado na Universidade do Minho?
Espero cumprir as funções que o cargo exige, isto é, ter sido bem sucedido na defesa dos interesses dos estudantes nos casos que me forem apresentados e ter, de alguma forma, contribuído para a melhoria de alguns pontos no funcionamento da própria Universidade. Isso seria para mim uma grande satisfação. Estou decidido a ter sucesso nessas duas áreas e estou certo que irei ter. Tudo isto acontecerá certamente num quadro dinâmico de mudança.
Em termos de metodologia, e agora nos primeiros tempos que ainda não há muita experiência, como é que vai fazer? Vai estar mais atento à realidade e tomar a iniciativa de estar mais próximo dos alunos para saber o que é que se passa ou espera que eles vão ter consigo? Será uma postura mais activa ou mais passiva?
Há aqui coisas a resolver no curto prazo. Há que encontrar uma estratégia de divulgação do próprio cargo junto dos estudantes.
Vai ter um gabinete, certamente, no campus ou na reitoria... Onde será possível encontrá-lo normalmente?
O regulamento prevê que a universidade disponibilize ao Provedor meios físicos, administrativos, financeiro e técnicos. Há uma norma no regulamento que o diz e, portanto, isso vai ter que ser falado com o Sr. Reitor.
Mas acha que o ideal será ficar instalado no campus, por exemplo?
A minha função é estar perto dos estudantes. Por isso, deverá ser essa a estratégia. Aliás, um dos princípios enumerados no regulamento sobre a actividade do Provedor é a valorização do contacto pessoal. Poderá haver outros meios e serão, de certeza, disponibilizados para permitir e agilizar o acesso do estudante ao Provedor.
Um dos problemas mais conhecidos em relação aos estudantes e que se tem falado muito tem que ver com algumas dificuldades económicas que os estudantes vão passando, isso também tem cabimento que o sejam levadas a si?
Sim, porventura. É um dos pontos em destaque noutras universidades e que está relacionado com a questão das bolsas e das propinas.
Conhece de forma idêntica os dois campi ou conhece talvez mais particularmente o de Azurém?
Tenho a sorte de pertencer a um Departamento que é também bipolar, estamos nos dois campi há muitos anos. Eu dou aulas nos dois, utilizo os serviços dos dois campi, portanto conheço minimamente o funcionamento em ambos os lados.
O facto de ser um professor não poderá também inibir os alunos?
Mas isso é uma questão de confiança que vai ter de ser criada e alimentada ao longo do tempo. Os estudantes vão começar a perceber as vantagens e desvantagens, a confiança (ou não) que têm na pessoa do Provedor.
Mas planeia fazer o acompanhamento do início até ao final do processo até estar completamente fechado ou resolvido ou irá ficar pelo encaminhamento ou pelas direcções a dar aos alunos para a resolução do mesmo?
Não necessariamente. A ideia à partida será a de fazer o acompanhamento desde o início até ao fim, e isso vai depender um pouco do aluno. Isto é, uma vez informado e aconselhado, há que tentar fazer com que ele volte e que diga se resolveu o seu problema ou não. A solução encontrada para um estudante em particular servirá de referência para outros casos.
É uma componente pedagógica este acompanhamento?
Sem dúvida, mas aqui é um pouco mais. A prioridade será fazer com que o próprio estudante, pelos seus próprios meios, vá resolvendo os seus problemas.
Será uma espécie de orientador?
Sim, e de aconselhar em certos caminhos. Mais na perspectiva de incentivar o próprio estudante a prosseguir e a tentar resolver o problema que tem em mãos.
E o caminho que existe agora e que passa pela Associação Académica, delegados de cada ano, Director de Curso, Director de Escola, esse processo será eliminado e o Provedor terá logo essa função de encaminhar o processo para a pessoa que o poderá resolver ou integrará tudo na mesma linha?
Em princípio, os estudantes devem procurar o Provedor depois de terem percorrido todos os circuitos que estão estabelecidos.
O Provedor é um patamar último?
Em parte. Dependerá do estádio em que a reclamação ou a queixa for efectuada. O aconselhamento pode passar por aí, isto é, informar o estudante acerca dos canais existentes, que os deve respeitar e prosseguir.
Peguemos em casos concretos. Há alguns alunos que se dizem injustiçados e falam até em atitudes de vingança por parte de alguns professores em não o querer passar. Para si, acha que essa realidade pode existir na Universidade do Minho? Como espera lidar com esse tipo de casos, caso eles existam?
Esse é um problema complicado. No passado quando fui director de curso fui confrontado com alguns casos desses que está a falar. Não é fácil, o aluno inibe-se, o aluno sente dificuldades em dialogar com o professor, porque sente que está sempre na perspectiva de poder vir a ser penalizado. Mas, através do diálogo com o próprio professor, as coisas conseguiram-se resolver. No entanto, penso que ainda poderão existir situações dessas, porque existem noutras universidades, noutros países.
Em relação a essas estatísticas que estavam nos relatórios que chegou a ler, o que é que evidencia e em que matérias é que o Provedor foi obrigado a intervir mais vezes?
Questões muito diversas. Planos dos estudos dos ciclos, questões de avaliação, mudança de critérios a meio do curso, serviços para deficientes que não estão a funcionar, alojamentos, residências, parques de estacionamento, reingressos. Enfim, toda uma série de situações.
O provedor teve nesses casos um carácter muito interventivo ou apenas se resume a fazer esse encaminhamento?
As estatísticas apenas mostram números agregados, não vão ao detalhe para se perceber que tipos de acções foram tomadas.
Há pouco falou que vai acompanhar os casos, mas falou que em alguns poderá haver uma não solução. Nesse caso o que é que pensa fazer, se achar que o aluno tem razão, por exemplo?
O Provedor pode informar os órgãos, as unidades e/ou os serviços relevantes, e/ou solicitar que sejam tomadas algumas medidas. E essas unidades e esses órgãos têm que informar o Provedor acerca da acção tomada ou não tomada, explicando as razões da decisão.
Daniel Vieira da Silva

Ultrapassado que está metade do mandato de António Cunha à frente da reitoria da Universidade do Minho, o reitor faz um balanço positivo do que foi feito e abordou temas quentes na actualidade universitária.

