Adriana Carvalho é a responsável pelo Gabinete de Relações Internacionais da Universidade do Minho e falou ao ACADÉMICO acerca dos processos de mobilidade académica. O GRI pretende ser uma estrutura de coordenação de acompanhamento e de apoio a todas as iniciativas de internacionalização do ensino. A responsável falou das funções desempenhadas por este Gabinete, da sua importância para os alunos Erasmus e das dificuldades económicas sentidas ao nível da prestação de serviços. Relativamente aos cerca de 500 alunos que chegaram este ano à Universidade do Minho, Adriana Carvalho refere que o principal papel do GRI é facilitar a integração desses alunos. Quanto aos cerca de 350 alunos que saíram este ano da UM, cabe ao GRI acompanhar e coordenar o processo das candidaturas.
Como é um dia de trabalho no Gabinete de Relações Internacionais (GRI)?
Normalmente não temos um dia igual ao outro, mas o Gabinete de Relações Internacionais é uma estrutura do gabinete da Reitoria que, como o próprio nome indica, é a estrutura operacional que tenta coordenar todas as iniciativas e actividades de intercâmbio e cooperação académica. Nesse sentido, o dia-a-dia tem a ver basicamente com a condução e o tratamento de processos de mobilidade de estudantes e docentes, estabelecimento de protocolos internacionais, gestão de projectos de internacionalização do ensino e organização desses processos de mobilidade que são sempre bastante complexos, atender estudantes, docentes e funcionários da universidade, fazer uma ponte com os Serviços de Acção Social, Serviços Académicos e Serviços de Documentação, na medida em que somos também o front-off dos alunos estrangeiros em intercâmbio na Universidade do Minho (UM) em relação a todos os outros restantes serviços. Basicamente o nosso dia-a-dia é bastante complicado, com alguns imprevistos, porque lidamos com muitas pessoas. Temos um horário de atendimento da parte da tarde e que tentamos que as pessoas concentrem o seu contacto físico com o GRI nesse período, mas isso nem sempre acontece.
Na sociedade em que vivemos, que importância assume na universidade um Gabinete destinado ao desenvolvimento iniciativas de internacionalização?
Justamente por causa de globalização. É um fenómeno da globalização. Eu acho que, hoje em dia, nenhuma instituição de ensino superior ou nenhum dirigente de uma instituição de ensino superior afirmaria que a internacionalização não seria prioritária. Uma das motivações principais da Universidade do Minho é a convicção que essas actividades fomentam e promovem a qualidade do ensino que nós ministramos e obviamente a promoção da universidade no mundo internacional ou a promoção da sua imagem externa.
Que serviços disponibiliza o GRI aos estudantes de Erasmus?
Nós criamos a oportunidade, criamos o enquadramento. O gabinete gere o programa Erasmus, como programa comunitário, e faz a interface com a Agência Internacional para um programa de aprendizagem ao longo da vida, que é o programa marco que enquadra o Erasmus dirigido especificamente ao ensino superior e, portanto, nós temos os coordenadores Erasmus que trabalham em equipa com o GRI ao nível da coordenação académica, há a identificação da parceria, o estabelecimento dos protocolos com essas universidades e há uma candidatura ao Erasmus University Charter. Depois temos o enquadramento com o estabelecimento dos protocolos com os coordenadores analisarem essa viabilidade e uma candidatura à Agência Internacional para pedir o dinheiro das bolsas todos os anos lectivos e, por sua vez, depois temos todas a gestão do programa.
No sentido inverso, que actividades organizam para ajudar a integração dos alunos Erasmus?
Nós tratamos os alunos que recebemos como gostaríamos que os nossos fossem tratados lá fora. Eles também passaram por todo este processo nas suas universidades. Antes de eles chegarem há já todo um processo de preparação intensivo do período de mobilidade, de fornecimento de informação, disponibilização das unidades curriculares dos cursos que eles podem frequentar, o contacto com o coordenador académico, a organização de alojamento, oferta de um curso de Português, independentemente de terem aulas em Português ao não. Fazemos um programa de orientação assim que chegam tanto no início do 1º semestre como no 2º semestre, em que todos estão juntos e recebem todas as informações de carácter prático, onde depois oferecemos um almoço na cantina e onde fazem, por exemplo, um pedi-paper para conhecer o campo de Gualtar, temos reuniões preparatórias de inscrição, temos os sistema do padrinho/madrinha Erasmus, que também é uma forma de atingir os nossos alunos que ainda não saíram ou já saíram em termos de estratégia e adaptação desses estudantes na universidade.
Tem ideia de quantos estudantes Erasmus estão actualmente na Universidade do Minho?
No ano lectivo de 2009/2010 nós recebemos quase 500 estudantes de intercâmbio.
O que ainda pode ser feito para melhorar a integração dos estudantes Erasmus na Universidade do Minho?
A questão do alojamento é sempre complicada. Nem sempre todos os estudantes que recebemos apreciam as condições da residência universitária, portanto essa é uma questão delicada. A questão linguística também. Acho que teríamos um potencial muito maior se tivéssemos uma oferta mais alargada de cursos ministrados em inglês. A capacidade de organizarmos mais actividades extra-curriculares, porque como temos recursos limitados e o trabalho já é tão complexo, seria muito interessante que pudéssemos organizar de uma forma mais frequente e estruturada actividades extra-curriculares dos mais variados níveis e entre outras actividades.
Quais os aspectos mais positivos que os estudantes Erasmus valorizam na Universidade do Minho e em que medida considera que afectam na decisão de escolherem esta universidade?
Temos áreas de excelência que têm despertado grande interesse, os alunos são sensíveis a isso. Ficam todos contentes com o tratamento que recebem e com a organização do processo. Nós tentamos realmente com que eles se sintam bem acolhidos e mais seguros relativamente à informação que nós disponibilizamos. Alguns deles gostam muito das condições da universidade, da estrutura, das actividades extra-curriculares ou de todo o processo académico que a universidade tem. Alguns gostam muito do contacto que têm com os professores, porque o seu sistema é mais distante. Há outros que criticam, porque o sistema é mais próximo. Temos sensivelmente 34 nacionalidades representadas na universidade, que vai desde o Erasmus normal, com quase toda a Europa coberta, com estudantes da América Latina, do Brasil, do Chile, da Argentina, da Ásia, da Indonésia, do Camboja, e do Vietname.
Muitas vezes é por desconhecimento das oportunidades de intercâmbio que os alunos acabam por não se inscrever aqui na universidade do Minho. O que tem a dizer sobre o projecto?
Eu não concordo com esta afirmação. A informação é disponibilizada no site do GRI, é uma disponibilizada numa brochura que é criada especificamente para o efeito, os cartazes são afixados. Há um período que normalmente acontece na mesma altura ao longo ano. Fazemos mensagens de correio electrónico para os estudantes, temos os coordenadores Erasmus que deveriam ser elementos de divulgação e talvez aí tenhamos que trabalhar um pouco mais nesse processo.
Muitas vezes ouve-se muito a afirmação: “Deixei passar o prazo e agora não já não posso”.
Pode. Tanto é que o ano passado, porque tivemos mais dinheiro do que aquele que normalmente tínhamos e porque houve um decréscimo de estudantes, com um nível de desistência muito alto, nós lançamos até uma segunda convocatória mais tarde. No processo de candidatura o que é que nós dizemos? Há alunos que dizem que não sabiam que o prazo de candidatura já estava aberto. Como é que nós fazemos essa informação passar? Contamos com a Associação Académica, com as Direcções de Curso mais pró-activas juntas connosco. Do ponto de vista do gabinete, é totalmente incomportável fazer uma divulgação boca a boca. Nós fazemos uma sessão de divulgação com testemunhos, uma oficial em Gualtar e outra em Azurém, até há spots publicitários na RUM.
Então o que está a falhar é a articulação com alguns cursos?
Talvez uma divulgação mais entusiasta ao nível do curso, talvez uma sensibilidade maior para a importância disto. A importância da internacionalização não pode ser uma única pessoa a falar, deve ser uma cultura que nós interiorizamos e toda a comunidade académica da Universidade do Minho deve interiorizá-la. Mas há quem saiba que existe as oportunidades e continue desinteressado. Por falta de informação eu tenho alguma dificuldade.
Que projectos futuros pensam desenvolver para reforçar a cultura da internacionalização?
Nós temos o Erasmus tradicional, temos o Erasmus Placement, que é a possibilidade de fazer um estágio curricular no estrangeiro, temos o Leonardo da Vinci. Somos uma das poucas universidades a nível nacional com bolsas Leonardo para oferecer aos nossos estudantes e todas as semanas recebemos dezenas de mensagens de outros graduados de outras universidades do país, porque querem beneficiar dessas bolsas universitárias. Tentamos criar esquemas, por exemplo, o programa de Bolsas Luso-brasileira Santander Universidades, que é um acordo institucional que fornece bolsas para o Brasil. Temos o, que não são institucionais, mas que depois são objecto de envio e de selecção central. Temos o projecto Erasmus Mundus, tivemos, nos últimos dois anos, sete parcerias Erasmus Mundus e que só podem concorrer estudantes das universidades que estão no consórcio e a Universidade do Minho esteve em sete consórcios. Entretanto temos os cursos de língua Erasmus, promovemos que o próprio aluno que é seleccionado para o programa Erasmus possa fazer uma preparação linguística das línguas menos faladas na União Europeia. Portanto, essa é uma preocupação, de tentar criar esses enquadramentos.
Quantos alunos da Universidade do Minho se encontram a fazer Erasmus?
No ano lectivo de 2009/2010 nós temos, sensivelmente, 350 estudantes.
Quais as universidades e países que são mais escolhidos?
Principalmente Europa. Temos uma escolha mais massiva ao nível de Espanha, Itália, o que é natural tendo em conta as semelhanças culturais e questões linguísticas. Mas também temos estudantes na Polónia, República Checa, França, alguns no Reino Unido, Holanda. Basicamente, temos em quase todos os países europeus. Além disso temos estudantes na China e esperamos ter mais estudantes nesses projectos da Ásia. Temos também estudantes no Brasil, Chile, (está a tentar sair agora um aluno para o Chile).
Na sua opinião e com base na sua experiência, quais as vantagens em fazer Erasmus em termos pessoais e profissionais?
Nós temos aqui um texto próprio que traduz o valor acrescentado dessas oportunidades, mas é uma experiência bonita. Eu fui estudante Erasmus e posso dizer com bastante conhecimento de causa o que representou naquilo que é o meu percurso profissional e meu percurso formativo. É uma oportunidade única, uma oportunidade de enriquecimento pessoal, social, académico e profissional. É uma forma muito interessante de adquirir as tais competências transversais, que hoje em dia até estudos fundamentam isso, que os períodos de mobilidade e essa inserção numa outra cultura e num outro país com novos métodos de ensino, novas abordagens pedagógicas, novas linhas de investigação. É uma das formas mais bem conseguidas para se adquirir isto.
E em termos empresariais, qual é a importância que tem sido dada pelas empresas à experiência Erasmus?
Cada vez maior. Há empresas que na sua política de recrutamento e selecção têm quase como factor de ilegibilidade que os candidatos tenham tido uma experiência internacional e, para além disso, há também um estudo feito por um professor que é um “guru” nesses dados estatísticos em termos de internacionalização, de que não se pode garantir que um aluno que tenha feito um período de intercâmbio tem automaticamente um emprego garantido. Os estudos demonstram que se alguém fez uma mobilidade de média e longa duração, que é uma mobilidade de no mínimo de 5 ou 6 meses, conseguirá mais facilmente o seu primeiro emprego.
A ideia de estudar numa cultura diferente, num país diferente assusta sempre. Que conselhos daria a um estudante que vai fazer Erasmus?
Sem dúvida que o espírito aventureiro é importante e nem todos têm perfil para isso. É uma verdade, há quem não queira passar pelo “sacrifício”, pela incerteza que, por vezes, está associada a esse período. Os conselhos que eu dou é dizer a cada estudante que tem que ser maduro para preparar e planear o seu percurso formativo e enriquecer o investimento na formação e na sua vida. Portanto, ao entrar na universidade há que começar a pensar no assunto. O conselho é preparar-se bem, informar-se devidamente.
Quais são as principais dificuldades que os alunos lhe trazem?
A questão financeira é importante e não podemos minimizá-la. Nem todos os que querem podem, mas o facto de ter uma situação menos favorável do ponto de vista socioeconómico não se perde o acesso. Tem que se encontrar outras alternativas, ou arranjar receitas ou pedir um empréstimo ou “apertar o cinto” durante algum tempo ou ainda negociar esse tipo de condições. A adaptação ao alojamento, questões linguísticas que às vezes não foram bem. Há também as saudades… Há quem não consiga estar longe e não se tenha conseguido adaptar e integrar. Há pessoas que estranharam os métodos de ensino e, portanto, não conseguiram acompanhar esse processo académico no estrangeiro.
Muitos alunos desistiram?
O ano passado houve muitas desistências depois de terem sido aceites pelas universidades. Alguns alunos desistem por razões perfeitamente legítimas, que tem haver, por exemplo, com uma situação familiar difícil que porventura tenha surgido ou questões de saúde e outras relacionadas. Há alunos que saem daqui já com a ideia formada de que ‘quando acontecer qualquer coisa de errado, eu volto logo’. Portanto, esse não é o espírito, não é o pressuposto.
Que alterações trouxe Bolonha aos projectos de cooperação internacional?
Exigiu que nós ajustássemos aquilo que eram as nossas parcerias e o que era o formato ideal para cada uma oferta formativa que a Universidade do Minho tinha. O que acontece é que isto ainda não aconteceu de forma plena e portanto ainda estamos aqui a encontrar algumas dificuldades e esse também poderá ser sempre um factor que o aluno não quer correr riscos.
Faz um balanço positivo?
Em termos de número não foi e não está a ser.
As dificuldades económicas que se vivem na Universidade do Minho afectaram a qualidade dos serviços prestados pelo Gabinete de Relações Internacionais?
O que eu posso dizer é que as nossas actividades aumentaram exponencialmente, o volume de trabalho que o gabinete tem e o nível de responsabilidade. Infelizmente, os recursos disponibilizados, principalmente em termos de recursos humanos, não acompanharam essa evolução ou esse acréscimo. O que implica que, eu não vou falar de qualidade, porque nós temos uma preocupação muito grande com a qualidade, mas, obviamente, o volume excessivo prejudica sempre alguma da qualidade da disponibilidade do que nós consideramos o cenário ideal em termos de serviço. Certamente, esta é uma questão importante e esperamos que se reverta.
Considera que há falta de recursos?
Os recursos são insuficientes para o volume de trabalho que existe e para aquilo que nós consideramos como o projecto ideal, porque há muitas actividades que nós não conseguimos desenvolver, há coisas que poderíamos estar a fazer a mais, mas que não conseguimos dar resposta. Portanto, é um pouco por aí.
Daqui a cinco anos, o que gostava de poder afirmar que melhorou no funcionamento do GRI?
Eu gostava que houvesse informatização e implementação dos sistemas de informação no nosso serviço. Eu gostaria de ter, daqui a cinco anos, um sistema on-line de candidaturas, tanto para os alunos de fora como de dentro, absolutamente avançado. Gostava de poder tratar esses dados de uma forma eficiente, que todos os processos fossem integrados com os outros serviços da universidade.
Daniel Vieira da Silva

Ultrapassado que está metade do mandato de António Cunha à frente da reitoria da Universidade do Minho, o reitor faz um balanço positivo do que foi feito e abordou temas quentes na actualidade universitária.

