Nasceu Maria do Carmo Rebelo de Andrade mas desde sempre lhe chamaram Carminho, a voz revelação do fado nacional, passou por Braga há umas semanas para apresentar o novo “Fado”, disco de 14 temas “muito directos e com alguma ousadia”. Convidámo-la a uma conversa sobre o seu fado e sobre a sua vida. De preto, reparámos, no entanto, que não usa xaile...És uma fadista da nova geração, daquelas que já não usam xaile nos espectáculos...
(risos) Não, eu não uso xaile porque não me identifico, porque não me dá jeito. Eu penso que o xaile é um elemento muito tradicional, muito típico, que veio com a Amália, com outras fadistas anteriores à Amália, em que já existia o xaile. Eu penso que isso tem a ver com uma identidade, com uma vontade em sermos únicos. Se eu fizer aquilo como sei, com a minha verdade, eu tenho de olhar para mim e pensar: “o que é que eu gosto, o que é que me faz sentir bem?”, e não seguir um estereótipo. Só não uso xaile porque não me sinto bem, porque se tivesse parado e pensado “gosto de usar xaile”, não tinha qualquer problema em seguir o estereótipo, não é? Só não uso porque nao me sinto bem. Não me sinto confortável. Gosto de vestir coisas descontraídas que se calhar as pessoas da minha idade gostem de ver.
Em 2009 foram muitas as críticas positivas ao teu disco, como te sentes com este rótulo que te colaram como a grande revelação do fado deste ano?
(risos)
É um rótulo pesado?
(pausa) É sempre, quando nos despositam confiança e respeito é sempre uma grande responsabilidade. Porque por mais que seja positivo receber elogios dos outros, se levarmos esses elogios a sério eles trazem-nos muita responsabilidade de fazer as coisas bem feitas, de trabalhar muito. Porque o momento de cantar é um momento, mas há todo um caminho até se chegar lá, até ao momento em que tudo faz silêncio e se começa a cantar. Portanto, esse rótulo ajuda-me a trabalhar mais e melhor.
Mas não sentes esse peso?
Sinto o peso, mas é como uma espécie de “pica”, que só tem de acontecer porque, às vezes, entramos dentro de uma rotina e de um amolecimento e eu não gosto de me deixar cair nisso. Gosto de estar sempre no máximo das minhas energias e ter essa adrenalina de sentir que os outros estão a olhar para mim e que me depositam alguma confiança e alguma consideração, tenho respeito por isso.
O teu disco de estreia, “Fado”, tem 14 temas. Já lá vamos. Mas esta era uma saída óbvia, já que tens uma mãe fadista (Teresa Siqueira)?
Não foi óbvia até há algum tempo. Eu tirei um curso, eu estudei, viajei, porque estava um bocadinho descarrilada. Não sabia bem o que havia de seguir, estava confusa. Não sabia se gostava de Marketing, se queria cantar, e precisei do meu tempo, precisei de me conhecer melhor, de colocar as hipóteses na mesa e depois escolher.
E escolhes o fado…
O fado sempre fez parte de mim, desde que nasci. Não o punha como hipótese. Era como ser um braço ou uma perna, era como gostar de ver televisão ou gostar de ler ou gostar de passear. Pronto, gostava de cantar. Tive de olhar de fora e pensar “bem, isto é uma hipótese!”
“Fado” tem 14 temas, é o teu disco de estreia e procura, de certa forma, desmentir a ideia que o fado é uma música triste...
Sim.
Pode não ser uma música triste...
É uma música profunda. É profunda na tristeza e na alegria. É vivido com intensidade. Não é triste.
Daí o nome do disco, “Fado”?
É “Fado” porque é o que realmente gosto de cantar. É composto maioritariamente por fados tradicionais, tem guitarristas que eu admiro muito.
E como chegas a esta selecção de 14 temas?
Esta selecção foi muito fácil. Já eram fados que eu cantava há algum tempo, foram fados escritos propositdamente para mim. Muito directos, com algumas ousadias, já que também escrevi uns fados...
E algum deles entra neste disco?
Sim, dois. “Palavras dadas” e “Nunca é silêncio vão”.
Tens 25 anos. Se há uma altura em que os mais jovens estavam afastados do fado, hoje estão cada vez mais próximos. Como explicas este fenómeno?
Porque são os mais novos que também estão a cantar. E se eu canto, tenho 25 anos e gosto, porque é que os amigos e os amigos dos amigos e os colegas dos amigos dos amigos não hão-de gostar? Porque, para além de ser fado, eu depois trago inconscientemente as influências que me formaram ao longo dos anos 80, que foi quando eu nasci. Foi ontem (risos). As referências que eu tenho são antigas, mas as influências que eu dou ao fado começam só nos anos 80, como todas as referências do rock, de todos os jovens que procuravam novas coisas. Eu fui bebendo de tudo isso, das influências dos meus pais, dos Beatles, do pós-revolução. A história influencia-nos e nós colocamos um pouco da nossa história naquilo que produzimos. Os jovens identificam-se porque também se revêem nessa história.











































Ultrapassado que está metade do mandato de António Cunha à frente da reitoria da Universidade do Minho, o reitor faz um balanço positivo do que foi feito e abordou temas quentes na actualidade universitária.

