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Entrevista a Pedro Soares

Em vésperas de mais um Enterro da Gata, o ACADÉMICO esteve à conversa com Pedro Soares, presidente da Associação Académica da Universidade do Minho. Mas esta entrevista não se limita a apenas a abordar as festividades que se aproximam, mas também temas como o Conselho Geral e a situação do Ensino Superior em Portugal.


O grande destaque da edição deste ano do Enterro da Gata é o acréscimo de uma noite de concertos. Como surgiu esta ideia?

Pedro Soares - O Enterro da Gata estava a assumir grandes proporções, e consideramos que ano passado era um ano crítico. A iniciativa podia perder qualidade e participação de estudantes diminuir, e na cabeça de muitos podia mesmo correr muito mal. Nós pensávamos que ou era isso, ou então o Enterro dava um salto significativo. A mudança para o novo espaço contribuiu para o Enterro da Gata melhorar, ultrapassados os constrangimentos logísticos, nomeadamente ao nível dos transportes, que foram um investimento fortíssimo da nossa parte. Ano passado conseguimos dar um salto muito grande relativamente às condições logísticas do evento, e isso permitiu uma maior aposta no cartaz, nomeadamente na contratação de bandas mais fortes. Isso deu uma enorme visibilidade ao Enterro e atraiu muitos parceiros, como a TMN, BES ou a Unicer. E apesar da chuva, ano passado atraímos mais pessoas, e conseguimos então garantir que este ano podíamos continuar a crescer. Daí a aposta em mais um dia, e num cartaz de qualidade, que na opinião de muitos, é dos três melhores do país.

Guano Apes é a maior aposta do Enterro. Isto preconiza que a AAUM pretende fazer sempre uma grande aposta internacional, depois de ano passado terem contratado os James?
Sem dúvida, e com uma particularidade: este concerto irá marcar o regresso dos Guano Apes aos concertos, após cinco anos de ausência. A tournée europeia da banda irá começar em Braga, no Enterro da Gata. Isto tem atraído muitos fãs de todo país, e temos sido contactados até para disponibilizar autocarros da Estação CP para o Gatódromo.

Com um orçamento de 500 mil euros, como conseguem ter um preço do bilhete único tão barato?
O importante é ter lá pessoas, e preferimos ter um cartaz atractivo que leve muita gente ao recinto, do que ter preços caros e pouca gente. Mas também pretendemos privilegiar os sócios de pleno direito da Associação Académica, pois este bilhete é apenas para eles. E queremos dar oportunidade a todos os estudantes, independentemente da sua condição financeira, de poderem ver este conjunto de bandas e participar no Enterro da Gata. É um bilhete económico, porque conseguimos atrair uma série de parceiros de renome para o cartaz e que possibilitam um maior investimento. Estes parceiros também aparecem porque a qualidade aumentou, e parece-me evidente uma coisa: o Enterro da Gata está em crescimento, não está estagnado. A AAUM entende que este evento tem de crescer, e de ano para ano irá continuar a crescer mais.

Vamos avançar para outro tema. A Universidade está a mudar, foi eleito um Conselho Geral (CG), foram alterados os estatutos… Estiveste envolvido na Assembleia Estatutária, e foste eleito para o CG— Como correu esse processo para a Associação Académica? Será que os interesses dos estudantes foram salvaguardados?
Eu acho que sim, porque os estudantes têm neste momento uma palavra a dizer em relação ao futuro da Universidade. O nosso lema de campanha para as eleições para o CG foi  “o futuro estás nas tuas mãos” e de facto o futuro da Universidade está nas mãos dos estudantes, porque conseguiram garantir um número significativo, quer no Senado, quer no CG. Além disso, garantiu-se que os estudantes têm uma palavra determinante na escolha do Provedor do Estudante e que a Universidade reconheceu o papel da AAUM na vida académica e dentro da própria instituição. A importância dos estudantes foi confirmada nos estatutos da Universidade, não através da “força”, mas sim através dos argumentos, pois os estudantes eram 3 em 15 membros da Assembleia Estatutária.

Apesar de tudo, os estudantes perdem “peso” político nesta nova orgânica, indo de encontro às directivas na nova legislação…
Parece-me que isso foi bem contornado, como por exemplo no Senado. Embora este órgão tenha apenas um poder consultivo, os estudantes passaram de 20 para 33 por cento.

Contudo perderam representatividade no órgão máximo da Universidade, o Conselho Geral…
Não perdeu assim muito. Na antiga Assembleia da Universidade os estudantes representavam cerca de 20 por cento dos lugares, e agora no Conselho Geral representam 17 por cento. Por isso é que eu digo que dentro do enquadramento legal, estes estatutos foram bem conquistados, e por isso é que já ouvi algumas más-línguas a dizerem que os estudantes estão a mais nos órgãos…

Isso também é uma crítica recorrente, pois muitos professores não reconhecem o papel dos estudantes como agentes interventivos na Academia…
De facto a Associação Académica está aqui para defender tudo menos os professores. Eles são muito bem defendidos pelos seus pares, e nós defendemos os interesses da Universidade, do ponto de vista dos estudantes.

Na semana passada o CG ficou completo, com a cooptação dos membros externos. Como decorreu este processo de escolha?
Correu tudo dentro da normalidade. Primeiro discutiu-se os perfis das pessoas a convidar, que sensibilidades e perspectivas da vida académica e da sociedade se desejava para o órgão, e somente depois é que foram identificados alguns nomes de candidatos. Houve visões diferentes, mas chegou-se a uma lista consensual de nomes que não causassem confusão a ninguém, e depois esses nomes foram a votação.

Este Conselho Geral vai eleger no próximo ano o sucessor de Guimarães Rodrigues à frente dos destinos da Universidade do Minho. Já há algum nome, ou perfil em discussão?
Não há ainda discussão sobre essa matéria…

E os estudantes membros do Conselho Geral vão ter um papel interventivo nesse processo?
Os estudantes têm um voto importante, tão relevante como os outros membros do CG.

E não haverá a tentação de funcionar como um bloco?
Tal como os docentes funcionam com um corpo. Mas todos os que fazem parte do CG têm uma visão global da Universidade, e irão defender o que consideram melhor para o futuro da instituição. Essa será uma discussão para o próximo ano.

Este é o teu terceiro mandato. O governo está no fim da legislatura, conheces bem o seu trabalho. Qual o balanço que fazes do trabalho do Ministério da Ciência e do Ensino Superior?
Eu diria mais ou menos. O mais é para a Ciência, e o menos para o Ensino Superior. Eu até conheço mal o trabalho deste governo na área do Ensino Superior (risos). Conheço o trabalho feito no RJIES, que foi uma tentativa de excluir os estudantes e de interferir na autonomia das universidades, e criaram ainda determinados moldes que obrigaram as universidades a perderem as características que tinham. O sistema matricial da UM está neste momento em causa, e foi um dos maiores defeitos que encontramos neste RJIES, porque não se deixou que a Universidade tivesse uns estatutos adaptados à sua realidade, o que feriu esta característica essencial da Universidade. No que respeita à legislação, este é um ponto negativo. No âmbito da Acção Social, conhecemos as dificuldades dos estudantes, e temos a percepção que há muitos jovens fora do ensino superior por falta de condições financeiras. Todos nós vemos isso acontecer ao nosso lado. Há muitos casos complicados actualmente na Universidade, salvaguardando que todos os estudantes que conseguem estar dentro do sistema de bolsa têm condições razoáveis para estudarem. O problema são aqueles que ficam fora do sistema. Um estudante só tem bolsa se o seu agregado familiar tiver um rendimento per capita inferior a 500 euros. Mas vamos supor que esta família tem mais que esse valor: aí já não tem bolsa. Nós propusemos a abolição dos escalões, e o pagamento de bolsa por capitalização. E muitos estudantes que estão no limiar da bolsa têm na mesma enormes dificuldades. No que respeita à política de financiamento às universidades, somos bastante críticos deste governo. Ao mesmo tempo que foram lançados os encargos da Caixa Geral das Aposentações para as universidades, aumentados os salários dos docentes, o financiamento tem vindo sempre a descer e a descapitalizar cada vez mais o investimento no ensino superior. E isso para nós é uma falta de visão naquilo que é a qualificação dos jovens e a promoção do ensino. E o país precisa deste tipo de qualificações, pois temos muito caminho pela frente para chegar ao nível de outros países da Europa. Nesta perspectiva, não conseguimos compreender esta política.

Estamos em ano eleitoral. O que gostavas de ver nos programas de governo para o Ensino Superior nos partidos políticos?
Em primeiro lugar, que dessem garantia que não iriam interferir na autonomia das universidades, e que oferecessem condições de qualidade para o ensino e investigação. E que entendam o Ensino Superior como investimento e não como um custo. Que não tenham uma visão economicista do Ensino Superior, mas sim uma visão arrojada de investimento naquilo que é o melhor para o país. É em momentos de crise que se fazem as opções mais difíceis, e que se vê quais sãos as suas prioridades. E gostávamos de ver alguém que considerasse o Ensino Superior como investimento para sair da crise. Enquanto os partidos não entenderem isto, vão sempre fazer opções erradas.

Nuno Gouveia
 
 
Que balanço fazes do último mandato da AAUM?
 
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