Segundo consta, ela é uma mulher suburbana solteira de amores, casada com desamores. Compõe as suas canções a espreitar por entre as cortinas a vida da vizinhança e ouvindo discos duma velha grafonola, que herdou da família. O seu nome é Deolinda, a chefe de família de quatro músicos que se juntaram para, através de um olhar cronista, criar um projecto de música popular portuguesa, com certeza. O ACADÉMICO foi tentar perceber qual a fórmula para o sucesso
Há quanto tempo já andam nestas andanças?
Há uns anos! O Zé [Pedro Leitão] e o Luís [José Martins] estudaram música desde pequenos. O Zé no HotClub e o Luís no Conservatório de Música de Lisboa. A Ana [Bacalhau] também estudou canto e o Pedro [da Silva Martins] escrevia para televisão e já compunha algumas canções. Mais tarde, juntámo-nos em grupos: a Ana e o Zé nos “Lupanar” e o Pedro e o Luís no “Bicho de 7 Cabeças”. Mais tarde, surgiria a Deolinda a reunir os quatro.
Como surgiu a ideia para formarem esta banda?
A “Deolinda” surge pelo gosto e vontade comum em fazer música. Além da música, somos família. O Pedro [guitarra] e o Luís [guitarra] são irmãos, a Ana [voz] é prima deles e o Zé [contrabaixo], marido dela. O Pedro compôs algumas canções e juntou-nos num fim-de-semana à volta dos temas. Logo ali se percebeu que havia banda. Sem fórmulas nem opções, foi o que foi e o que continua a ser: uma voz, duas guitarras e um contrabaixo a exprimirem-se musicalmente.
Porquê "Deolinda"?
Deolinda porque o universo das canções que tínhamos "pedia" esta ideia duma personagem. Foi o Zé Pedro que surgiu com o nome "Deolinda", um minuto depois de termos torcido o nariz a "Ivone", sugerida pelo Luís.
Os vossos primeiros passos foram dados na internet, com gravações muito caseiras. Como surgiu a oportunidade de darem o salto e gravarem um cd "a sério"?
Gravámos as primeiras maquetas em casa do Pedro e eram de tal forma caseiras que se ouvia a porta do prédio a bater numa delas ou carros a buzinar na rua, noutra. Mas foram essas gravações que, com a ajuda do MySpace, fizeram com que começássemos logo a receber comentários e mensagens de apoio e que, de certa forma, nos abriram portas para alguns concertos. Esses concertos permitiram-nos, além de dar uma maturidade maior às canções, a possibilidade de pagar um estúdio. Quando sentimos que era o momento de gravar as canções que tínhamos, reunimos com o Nelson Carvalho de quem admirávamos muito o trabalho e avançámos com a gravação.
O que vos serviu de inspiração para comporem estas músicas que já andam na cabeça de toda a gente?
O Pedro compõe as canções e escreve as letras com um olhar cronista sobre tudo o que vê à sua volta. Teve experiência de escrever para televisão e, talvez por isso, tenha mais facilidade em escrever essas crónicas em pequenas histórias musicadas, que nos tocam pela complexa simplicidade e porque nos identificamos com elas.
Como tem sido a vossa reacção ao feedback que têm do público?
Tem sido surpreendente. Desde o início sentimos muito carinho por parte do público que assiste aos nossos concertos. De poucos, passaram a muitos e hoje enchem todos os espaços por onde passamos. O que nos impressiona é ver tanta gente diferente, de idades variadas a cantar connosco as nossas canções do início ao fim dos espectáculos.
O facto de terem pegado no fado e lhe terem dado uma nova roupagem, fez-vos ouvir algumas críticas?
Não. Não sentimos que haja uma massa crítica relevante a defender o fado da procura de novos caminhos e em particular contra nós. Também porque o que fazemos não é fado. E achamos que isso fica claro por não utilizarmos guitarra portuguesa. O fado está lá como inspiração em igual medida que está a música tradicional portuguesa ou a nossa música popular.
No tema "Garçonete da casa de fado", gozam um pouco com a tristeza associada ao fado. Acham que o fado não tem que ser necessariamente "doloroso"?
Sim. Se pensarmos o fado como retrato da alma portuguesa. Se for apenas triste e melancólico não estamos a ser justos nem verdadeiros. Somos tristes e melancólicos, sim, mas também somos solares e alegres. Alternamos estados de espírito como qualquer outro povo no mundo. E ainda bem que assim é! Sempre existiu no fado esse lado mais solar e alegre. Não é novidade. Os brasileiros também não são apenas alegres e festivos...
Qual das etapas gostam mais: compor as melodias, gravar em estúdio, ou apresentar ao vivo os vossos temas?
Cada etapa tem o seu gosto específico. Tanto gostamos de fazer arranjos como gravar. Mas o grande propósito de todas essas etapas é estar em palco a apresentar ao público todo o trabalho que resultou dessas etapas anteriores. É no palco que culmina todo o processo de fazer uma canção. É o fechar do ciclo.
Têm algum ritual antes de entrarem em palco?
A Ana gosta de estar sozinha um pouco antes. A rapaziada cumprimenta-se e incentiva-se antes de entrar. Os verdadeiros rituais são quando estamos em palco, mas isso não podemos revelar. Têm de estar atentos nos nossos concertos....
Apesar de existirem há pouco tempo, já foram convidados para actuarem no festival Sudoeste. Foi um privilégio, um orgulho?
Costumamos brincar que se, no início da “Deolinda”, nos dissessem: "Vão tocar no SW!", iríamos rir à gargalhada. Nunca pensámos que tal pudesse acontecer. Pelo tipo de festival que é e pelo tipo de proposta musical que a “Deolinda” oferece. Por tudo o que aconteceu naquele dia, foi um concerto muito especial que nos vai ficar na memória.
Sentiram, de algum modo, o peso da responsabilidade?
Algum. Nunca tínhamos tocado em nenhum festival e existiam algumas dúvidas de como resultaria a “Deolinda” num contexto de Festival. Todas as dúvidas foram logo dissipadas quando tocámos os dois primeiros acordes. Foi uma grande festa!
Pelo menos, um dos vossos temas já pertence à banda sonora de uma novela de ficção nacional. Isto permitiu que o vosso trabalho chegasse a mais pessoas?
Sim. Há muita gente que diz que nos conheceu através do "Fado Toninho" que passava na novela. É natural. Hoje as novelas são ferramentas importantes de divulgação.
Circula na Internet uma petição para um novo hino nacional, substituindo "A Portuguesa" por "Movimento Perpétuo Associativo", que já conta com cerca de 2320. Foram apanhados de surpresa com esta proposta? Acham que será possível esta substituição?
A ideia foi-nos transmitida pelo autor da petição e nós achámos piada. Ele avançou e, de repente, toda a gente falava nisso. Discutia-se imenso na internet sobre a petição e esgrimiam-se argumentos a favor e contra. É óbvio que é uma brincadeira. A canção é uma auto-crítica. Ficamos felizes de saber que há muita gente que se revê nela, mas daí até ser hino...
O que podemos esperar, futuramente, dos "Deolinda"? Já estão a preparar um novo disco?
O próximo passo é a edição do nosso álbum "Canção ao lado" pela World Connection, na Europa e Estados Unidos. Já temos alguns concertos marcados no estrangeiro e gostaríamos de saber como o público estrangeiro receberia a “Deolinda”. A par disso, queremos tocar muito em Portugal, onde já temos muitos concertos em 2009. O segundo álbum virá naturalmente como o primeiro. Já existem novas canções feitas, outras a serem trabalhadas. Quando sentirmos que é o momento, avançamos.
Luís Miguel Costa







Ultrapassado que está metade do mandato de António Cunha à frente da reitoria da Universidade do Minho, o reitor faz um balanço positivo do que foi feito e abordou temas quentes na actualidade universitária.

