Ultrapassado que está metade do mandato de António Cunha à frente da reitoria da Universidade do Minho, o reitor faz um balanço positivo do que foi feito e abordou temas quentes na actualidade universitária.Os cortes no financiamento, a escassa acção social, a passagem a fundação e... A praxe dentro dos campi.
Tudo isto para ler numa entrevista exclusiva à RUM/ACADÉMICO/AAUM TV.
Estando a meio de um mandato de quatro anos, olhando em retrospectiva para estes dois anos está satisfeito? Foi mais difícil do que imaginava?
Vivemos num período muito complexo e dinâmico, pelo que em dois anos acontecem muitas coisas. A execução deste mandato tem sido um desafio muito interessante, sempre mais complexo do que as nossas expectativas iniciais, mas não deixa de ser algo desafiante, apesar das dificuldades.
Quando fala de dificuldades, está a pensar nas financeiras, especificamente?
Falo em todas. Durante dois anos o enquadramento que temos mudou significativamente, o quadro financeiro alterou-se, mudou o governo, mudaram os parceiros, mudaram as regras, o contexto universitário a nível nacional também tem tido dinâmicas diversas, e portanto há uma dinâmica muito grande em volta daquilo que é gerir uma universidade. Quanto aos dois anos do mandato, foram sempre cumpridos e consolidados os principais objectivos e o resultado e respectivo balanço tem sido muito positivo, sobretudo ao nível de projectos de investimento, onde os meios financeiros são mais importantes. Há certas coisas em que gostaríamos de já estar mais avançados face aquilo que estamos, mas a universidade é muito mais do que projectos de investimento. A dimensão científica, até mesmo a própria dimensão da nossa vida institucional, são áreas onde tem havido muito trabalho feito e, portanto, o balanço que faço é bastante positivo.
Especificando, por exemplo, aspectos positivos e negativos, se pudesse dar dois ou três, o que é que destacaria mais?
É muito positiva a normalização institucional que ocorreu e a migração total para o quadro do novo regime legal que enquadra as universidades e, portanto, isso teve a ver com uma série de institucionalização de órgãos e unidades orgânicas, e, neste âmbito, é também um crescendo do grau de autonomia dentro das unidades orgânicas da universidade, escolas ou institutos. Muito importante é o que estamos a fazer ao nível de toda a reforma administrativa da universidade e do modo como é feita a sua gestão financeira, pelo que é fulcral e, decerto que dará os seus frutos no futuro, assim como a implementação do sistema de qualidade.
Foi muito importante também a consolidação da nossa política científica e conseguirmos ter um laboratório associado no domínio das áreas da saúde, em associação com o grupo 3B’s de Engenharia, o que desempenha uma certa afirmação nessa área. Depois, lançámos um certo conjunto de projectos que estamos a trabalhar, que estamos a discutir, que sejam projectos que tenham futuras instalações em Braga, em Azurém, no complexo do Largo do Paço, mas que, de facto, são projectos que devido a constrangimentos financeiros vão deslizando com o tempo. Em Guimarães, felizmente, o projecto CampUrbis, em associação com a Câmara Municipal e beneficiando do quadro da Capital Europeia da Cultura desenvolve-se a um ritmo intenso e, dentro dos próximos meses, teremos o gosto e o prazer de inaugurar e abrir várias estruturas, nomeadamente uma estrutura que é fundamental para a universidade, que é o Centro de Formação Pós-Graduada, mas também duas estruturas associadas à UM nas quais estamos muito empenhados, sendo estas o Instituto de Design e o próprio Centro de Ciência Viva que será complementado com o laboratório da paisagem, num investimento que a Câmara de Guimarães também está a fazer.
Há alguns projectos que têm deslizado, dizia há pouco. Um deles é recorrente há muito tempo, sendo este a nova sede da Associação Académica da Universidade do Minho (AAUM). Na última entrevista apontava algumas datas que já foram ultrapassadas…
Gostávamos de já ter anunciado uma data para a solução do processo, estamos a trabalhar no processo de resolução. Era a minha melhor expectativa neste momento…
O próprio presidente da AAUM [Luís Rodrigues] diz que guarda com alguma mágoa a nova sede não ter avançado durante estes dois anos em que cá esteve, reconhecendo que houve avanços nessa área, ainda assim o que é que pode ser feito para se dar o passo definitivo para a nova sede avançar?
Como disse, estamos a trabalhar nesse assunto. Estamos a trabalhar numa situação que seja muito vantajosa para AAUM, com o objectivo de reduzir, ao mínimo possível, o investimento e compromissos financeiros que fiquem a cargo da AAUM. Portanto, estamos a trabalhar numa solução que seja do ponto de vista financeiro muito vantajosa e muito interessante para a AAUM, o que faz parte de um pacote mais global de negociação que envolve outros investimentos da universidade, que envolve vários parceiros. É um processo complexo, é um processo cujos actuais contextos económicos não ajudam e tornam grandes investimentos difíceis, pelo que estamos a trabalhar e tenho uma expectativa positiva de que vamos conseguir uma solução. Gostava que ela tivesse sido já conseguida este ano e que pudesse ser já anunciada este ano, pelo que estou confiante de que poderá ser anunciada brevemente.
Mas a questão da localização é um dos entraves para que estes parceiros se associem finalmente a esta causa da nova sede …
Certamente que a localização será limítrofe ao campus.
É inquestionável que a nova sede da AAUM deverá ficar na área do campus de Gualtar…
Não faz sentido pensar noutra solução, pelo que com certeza ficará junto ao campus, dentro do campus ou nas áreas limite deste. Independentemente da situação que venha a ser conseguida.
José Teixeira, responsável da DST, defendia, que no âmbito da reabilitação urbana do centro histórico de Braga, a Universidade teria que influenciar muito mais a cidade e falou em levar também para o centro a AAUM. Isso está fora de hipótese, completamente?
A questão de trazer população universitária para o centro, e tendo em conta que a zona da Universidade vai crescer naturalmente no futuro, parece-me um projecto absolutamente essencial para a cidade de Braga e um projecto muito interessante. Tudo isso faz parte de uma agenda que a universidade tem vindo a discutir com as autoridades municipais e com a câmara. Quanto à questão da AAUM, eu não sou dirigente da AAUM, não quero sequer condicionar as linhas de pensamento da AAUM, pelo que penso que deverão ter sempre uma instalação junto do Campus, devido a um conjunto diverso de actividades que devem estar próximas dos estudantes. Além disso, ter outras instalações de carácter mais social, mais ligado a momentos de lazer, imbuídos de um contexto cultural, de voluntariado (que é também uma agenda que a AAUM tem vindo a abordar) vejo como algo muito positivo. Porém, a única coisa que eu estou a dizer é que AAUM deverá ter sempre uma instalação junto do Campus, pelo que se tem uma do outro lado ou não, nomeadamente no centro da cidade dependerá do que os dirigentes da AAUM decidirem.
Relativamente ao edifício do castelo, essa proposta do engenheiro José Teixeira de ser transformado numa escola de Artes é viável. Está na agenda da reitoria?
A reitoria está a trabalhar num programa que passa também por encontrar uma solução para o edifício do castelo, mas tudo depende do crescimento, pelo que certamente o edifício do castelo poderá ter uma vocação cultural. Em termos formais, o ensino das artes, ligadas ao desenho e à escultura, a Universidade aposta em cursos nessa área, a partir da escola de Arquitectura e esses cursos serão instalados em Guimarães. No entanto, neste momento o nosso principal projecto no centro na cidade, no qual já começámos a trabalhar e já foi iniciado, é um projecto de reestruturação de todo o complexo do Largo do Paço que será o processo central de intervenção cultural da Universidade do Minho na cidade, no centro da cidade, e que pressupõe com grandes linhas estratégicas, havendo ainda espaço para a mudança do arquivo distrital para outro edifício; a mudança de instalações administrativas que ainda existem para o Campus de Gualtar e transformar o Largo do Paço num espaço simbólico, transformando aquele local num espaço de promoção da leitura e a todo o papel que a produção documental teve ao longo da história.
Em relação ao castelo, a escola da artes enquanto tal está, à partida, fora de hipótese?
A escola das Artes enquanto casa da Universidade do Minho que incida sobre o domínio das artes será um projecto que se iniciará de uma forma informal em Guimarães, pelo que a utilização daquele espaço para um espaço ligado de momento à escultura, ao desenho é um compromisso que, de momento, não quero assumir.
Para o próximo ano a Universidade do Minho terá um corte de 8,5%, atendendo principalmente nos salários cortados dos funcionários, mas o professor António Cunha já mencionou que para 2012, pelo que entendi, “dá para aguentar”, mas se houver um corte semelhante em 2013, possivelmente não?
É sempre muito difícil estas questões, pelo que pôr as coisas nesses termos, tanto para Universidade do Minho, como para as outras universidades portuguesas, não podem deixar de se envolver na resolução de um problema que todos percebemos que o país tem, e portanto como o país se depara com uma situação económica séria, tem que haver cortes grandes na administração pública e as Universidades não podem dizer não.
Esses cortes são conhecidos, mas há coisas que nós já não falamos, uma vez que acabam por ir atacando toda a sustentabilidade financeira da universidade, o aumento do IVA da energia, o que se concretiza numa quantia de 200 mil euros para a Universidade do Minho, o aumento do IVA nos produtos alimentares, o que poderá por em causa os preços nas cantinas nos produtos alimentares que são servidos aos estudantes da universidade, pelo que a Universidade certamente faz o seu melhor para encontrar soluções para o cenário de dificuldades com que se defronta. A universidade pode fazer coisas quase impossíveis, mas não pode fazer milagres e certamente haverá, se os cortes orçamentais não forem reduzidos, uma degradação no parque de infra-estruturas da universidade, haverá, desde logo, dificuldade em manter, nas áreas mais científicas, uma actualização/remodelação de equipamentos e há projectos que, no futuro, ficam certamente comprometidos, uma vez que necessitam de verbas próprias. Se a universidade de futuro não tiver maneira de responder a essa necessidade, esses projectos acabam por ficar comprometidos.
Além de tudo isto, há que lembrar que a universidade são os seus edifícios e respectivos equipamentos e tudo isso é muito importante, no entanto, são as pessoas e as equipas de funcionários o seu próprio capital.
Se não formos capazes de fixar e atrair talento para cá a Universidade e, eventualmente, morrerá, porque será uma universidade vulgar. As universidades precisam de duas coisas: precisam se estudantes, de sangue novo e precisam de talento que é construído a partir desses estudantes, sendo, portanto, um fluxo virtuoso que pretendemos manter.
Em relação a esta questão do financiamento, noto aqui um discurso preocupado, como é lógico e de uma certa forma ponderado. Não se identifica nas palavras do reitor da Universidade de Coimbra que diz que em 2013 a universidade fecha portas se os cortes forem idênticos aos que vão acontecer no próximo ano?
Já tive oportunidade de dizer que vamos ter um corte na ordem dos 8 a 10%. Se nada for feito que seja capaz de compensar esse corte e se a universidade tiver os mesmos compromissos que tem hoje isso torna-se insustentável.
É possível que alguns cursos tenham de fechar portas?
Não é previsível o encerramento de cursos de Licenciatura ou Mestrado Integrado em regime diurno. Poderemos ter alguns ajustes no regime pós-laboral, que é uma aposta muito específica, pelo que não é previsível o encerramento de nenhum curso da universidade, independentemente do núcleo a que pertença. No entanto, aquela que é uma das principais reformas que a reitoria está a conduzir é a reforma curricular, pelo que esse projecto tem como um dos seus objectivos eliminar unidades curriculares que tenham muitos poucos estudantes. Deste modo, o objectivo é garantirmos que não temos disciplinas com números inferiores a 10 alunos, pelo que tendencialmente, até mesmo as disciplinas de opção, tenham sempre um número superior a 12 alunos e nunca uma frequência menor que essa.
Como é que a reitoria vê estes cortes na acção social e como é que isto pode ter influência nos alunos que já estão a abandonar as universidades?
Acho muito bem que a AAUM se preocupe com esta questão. Os números de abandono que refere eu não posso de maneira nenhuma confirmá-los, nem os confirmo, primeiro porque só teremos algum número capaz de ser confirmado até ao final de Dezembro, quando os alunos tiverem que pagar a primeira prestação das propinas. Quando dizemos que os alunos que saem da universidade, não temos nenhum indicador até ao final do ano que nos esteja a dizer isso, embora haja, com certeza, vários alunos a sair da universidade e vários alunos a entrar na universidade através de um processo com uma dinâmica muito especial, associados aos processos de transferência, associados também aos alunos que se inscreveram também na primeira e na segunda fase e que não confirmaram a sua inscrição e que depois saltaram para outra universidade. Portanto, o movimento que existiu até agora é fundamentalmente esse. No ano passado tivemos um número de desistências relativamente baixo, mas os números são conhecidos, que é um valor de total de 560 alunos. Isso envolve alunos que saem por outros motivos... Não é claro quantos desses alunos saíram efectivamente por questões sociais.
Porque sentiu necessidade este ano de intervir nas praxes? Acha que houve exageros?
A universidade tem um quadro de valores muito bem definidos e que está no seu estatuto e, portanto, a universidade certamente tem que reagir quando o seu quadro de valores é posto em causa. Para além da questão do quadro valores, sendo os campi um local de trabalho, onde para além das aulas e da actividade lectiva normal, há muitas outras iniciativas, actividades de investigação. Todas estas não podem ser perturbadas por ruídos, por manifestações de qualquer género que as afectem.
Quero apenas reforçar e dizer de uma forma muito clara que a universidade é um espaço de tolerância e de liberdade onde os estudantes têm certamente a autonomia e essa liberdade para desenvolverem as actividades que entendem, pelo que têm que perceber que o que têm que desenvolver dentro de um quadro de valores da universidade, e têm que perceber que quando o fazem não podem por em causa outras entidades e não podem levar ninguém a fazer aquilo que não querem fazer.
Em relação à fundação, que já foi aprovada em Conselho Geral, quando é que poderá avançar, embora se fale que o Governo actual não tem grande interesse em desenvolver a ideia…
Não temos nenhum sinal nesse sentido deste governo. As fundações universitárias são fundações públicas de direito privado, são um caso muito específico das instituições de regime fundacional e que têm um quadro muito próprio. No entanto, este governo entendeu que havia vários problemas ao nível das instituições fundacionais de carácter geral, e nomeadamente, as de regime de direito privado, e está a fazer uma nova legislação que poderá ter impacto no quadro jurídico das instituições fundacionais universitárias, e portanto o governo em resposta ao nosso pedido respondeu à Universidade do Minho dizendo que deveríamos ter uma moratória de algum tempo até essa lei estar definida e aprovada, pelo que é expectável que essa lei seja aprovada até ao final do ano. Espero que o primeiro trimestre do próximo ano esteja destinado à negociação do processo, sendo uma negociação que poderemos fazer no quadro e nos pressupostos que levaram à universidade passar a fundação, mas se estes pressupostos forem significativamente alterados, a universidade terá que tomar uma nova decisão sobre se continua a apostar neste regime ou não.
Está preparado para perder o seu vice-presidente, o José Mendes? Recentemente numa entrevista à RUM/ACADÉMICO e AAUMTV, admitiu a possibilidade de vir a ser candidato autárquico a Braga em 2013, à câmara de Braga. Encara essa possibilidade de o perder da reitoria?
O professor José Mendes é uma figura muito conhecida e muito querida da universidade e da região. Não sei quais são os seus projectos, pelo que certamente ele tem toda a legitimidade para ter os seus projectos, mas penso que neste momento essa situação não está colocada em cima da mesa e se estiver não tenho dúvidas que o professor José Mendes confrontará o reitor com essa situação.
E é a sua intenção continuar como reitor após 2013?
É uma situação também que não se coloca neste ponto, dado que tivemos a oportunidade de começar esta entrevista dizendo que as situações são muito dinâmicas nos dias de hoje, uma vez o que é actualmente o nosso contexto passados seis meses está significativamente alterado. Uma decisão sobre isso certamente será tomada muito mais perto do final do mandato, e não é neste momento a altura.









































