José Fernando Gomes Mendes nasceu em Braga, há 49 anos, mas foi viver para Lisboa ainda muito novo. Mais tarde, acabaria por regressar à terra natal onde se licenciou e doutorou em Engenharia Civil na Universidade do Minho, tendo obtido, ainda, o grau de agregado, na especialidade de Planeamento e Arquitectura.
A nível institucional, foi pró... e também vice-reitor da Universidade do Minho (UM), no tempo de António Guimarães Rodrigues, tendo regressado à reitoria, integrado na actual equipa liderada por António Cunha.
É vice-reitor da inovação, empreendedorismo e projectos especiais, sendo também responsável por áreas como as relações internacionais não-académicas.
Fora da universidade, destaca-se como presidente da mesa da Assembleia Geral do Sporting Clube de Braga.
Gosta de praticar desporto... e até já foi atleta do Braga. Começamos exactamente por aí, pelo desporto.
Como vê a aproximação da cidade à Academia resultante da sinergia entre um clube da AAUM e um clube da cidade?
Acho que, nestas situações, este tipo de parcerias entre clubes que tenham um know how desportivo e entidades que podem ser fonte de praticantes é muito interessante. No caso desta equipa entre AAUM e Sporting Clube de Braga, vejo com todo o interesse e acho que é o modelo que poderia ser seguido em muitas outras modalidades, porque de facto a Academia é um espaço privilegiado para a prática do desporto. Acho que o Sporting de Braga e a AAUM tomaram o caminho correcto e interessante.
Acredita que a equipa se vai manter na 1ª divisão na próxima época?
Acredito. Sou um optimista. Até ao último segundo, do último jogo, da última jornada... Acredita-se sempre. Isto de facto, quem andou no desporto tem esta mentalidade.
Vamos ter um ano muito importante a nível de organizações, nomeadamente do Campeonato mundial de futsal, em Braga, e também o Xadrez, em Guimarães. A Capital Europeia da Juventude (CEJ) e Capital Europeia da Cultura são também um impulso para a organização destes campeonatos?
São um impulso. Este caminho de organizações de, eventualmente, boa projecção, mas menores custos, é um caminho que Portugal pode seguir. Há uns anos dizia-se que Portugal, neste caso Lisboa, poderia tentar organizar uns Jogos Olímpicos. Não sei se as pessoas têm a noção do nível de investimento por trás de uma organização desta dimensão, é uma coisa que não faz sentido para um país como Portugal.
Mas não vejo as pessoas a pensarem organizar umas Universíadas, que têm uma projecção semelhante ou paralela aos Jogos Olímpicos, mas que, de facto, é uma organização muito menos custosa, com custos muito mais controlados, mas que também serve para aquilo que é o objectivo principal que é criar, em determinado momento, uma centralidade num país, ou num conjunto de cidades portuguesas, para atrair pessoas, dar visibilidade e, naturalmente, contribuir para aquilo que é a competitividade do país.
É também presidente da Assembleia Geral do Sp. Braga. Acredita que o clube poderá vir a ser campeão durante o seu mandato, como é o desejo do presidente António Salvador?
Ser campeão é sempre uma conjugação do nosso valor e do menor valor das outras equipas. Esse objectivo [do título] existe e, evidentemente, sendo realistas, as pessoas não podem definir isso como objectivo que define o sucesso ou não da equipa.
Voltemo-nos para a Universidade do Minho (UM). A gestão menos boa que tem sido feita por algumas entidades vai ter reflexos em relação à Universidade. É já sabido que a UM vai ter uma redução do financiamento estatal. Como é que pensam resolver este problema?
A universidade, como todas as outras organizações da esfera do estado, teve cortes orçamentais e, portanto, tem que fazer um ajuste, que é um ajuste estrutural ao seu modelo de funcionamento de forma a acomodar esses cortes orçamentais. Por outro lado, a UM tem já na sua tradição e no seu orçamento uma prática de captação de receitas próprias. Portanto casando essas duas realidades, os cortes por um lado e por outro, esta lógica e esta necessidade e obrigatoriedade que faz já parte da nossa prática de captar receitas próprias, a universidade tem que encontrar um ponto de equilíbrio de forma a poder viver. De momento conseguiu acomodar os corte que se perspectivam para 2012. Admito que, tal como estão as coisas actualmente, não haja capacidade para mais cortes, ou seja, para acomodar mais cortes. Mas de facto a Universidade vai ter que viver desta forma, como todas as outras Universidades e as outras organizações públicas do país e também como as pessoas. Temos que ajustar a nossa forma de funcionamento a essa nova realidade financeira, não esquecendo no entanto que um corte substancial nos investimentos pode significar uma perda de competitividade, uma perda de actividade e, de facto, esse é o ponto de equilíbrio que é preciso procurar.
Se houver mais algum corte poderá ter que haver aumento de propinas, por exemplo?
Não. Os aumentos de propinas são definidos por lei. O Conselho geral da UM poderá tomar uma decisão, mas dentro de determinadas balizas e neste momento as Universidades praticam todas a propina mais alta que a lei prevê. Portanto, não se trata de uma decisão da universidade para responder a cortes orçamentais. Em todo o caso, ainda que isso fosse possível, e essa é uma palavra do Sr. Reitor, não é minha necessariamente, mas como opinião pessoal parece-me que, no contexto em que vivemos actualmente, fazer reflectir cortes orçamentais em novo aumento de propinas não seria muito aceitável.
Disse há tempos que “o empreendedorismo feito na UM é um dos melhores no país”. Como justifica esta afirmação?
Esta afirmação não é um um exercício de vaidade da UM, mas sim um exercício factual. Na UM e nas Universidades de um modo geral, empreendedorismo e inovação estão de mãos dadas. Na verdade, aquilo que são os resultados da inovação da UM ao longo dos últimos anos, avaliados por entidades terceiras, são excelentes, ao nível do melhor que se faz em Portugal.
A Universidade mantém um programa de empreendedorismo interessante do nosso ponto de vista. Para esse programa de empreendedorismo a universidade disponibiliza um conjunto de veículos. Disponilibiza um gabinete de transferência, tecnologia e empreendedorismo, que designamos por Tecminho, depois disponibiliza uma incubadora - SpinPark - e depois integra, também, um parque de ciência e tecnologia que é o AvePark. Ao longo destes três veículos é possível criar um pipe line de empreendedorismo. A UM tem aquilo a que nós chamamos ecossistema de empreendedorismo e inovação. Este ecossistema inclui um grande número de entidades, de empresas. O primeiro grupo são as spinoff’s, as empresas criadas dentro da Universidade, um segundo grupo são as empresas que não seguiram o pipe line formal da criação de spinoff’s, mas que foram criadas por alunos, docentes, funcionários, investigadores da universidade e depois temos outro grupo de empresas que são as empresas participadas, aquelas em que a própria universidade participa. Esse bolo completo, ao longo dos últimos anos, é algo como cerca de 120 empresas a facturar anualmente cerca de 260 milhões de euros. Isso é o que a universidade está a dar de volta à sociedade e é para isso que cá estamos. A universidade tem por missão, obrigação inquestionável, dar de volta à sociedade... E dar de volta através de valor, formando pessoas que vão para o mercado de trabalho e também promovendo o empreendedorismo.
O empreendedorismo é, então, a principal imagem de marca da Universidade do Minho?
Não sei se é a principal imagem. O empreendedorismo é uma consequência, sempre. A nossa imagem de marca é sermos uma universidade de investigação. Nós produzimos conhecimento que se formos capazes de converter em valor, então, temos empresas, temos inovação, temos excelentes profissionais que são capazes de entrar no mercado de trabalho. Nós somos uma universidade de investigação. Mesmo os nossos estudantes que seguem carreiras profissionais incorporam, ao longo do seu período de estudo, conceitos de investigação, onde o conhecimento mais avançado está permanentemente presente.
Uma das áreas pela qual é responsável enquanto vice-reitor é precisamente a das relações internacionais não-académicas. O reitor António Cunha sempre referiu a importância que dá à internacionalização da própria Universidade. Tem havido um aprofundamento dessa questão?
O conhecimento não tem fronteiras. A física, a matemática, as engenharia ou multimédia não têm regras especiais. Portanto, se não têm fronteiras, a única forma de avançarmos no conhecimento é internacionalizarmo-nos. Outra razão para a internacionalização é o nosso mercado de trabalho que é muito curto. Portugal é muito pequeno, de facto, e é absolutamente seguro que um jovem licenciado, na sua carreira profissional, vai ter que ter algum período de trabalho no estrangeiro. Quem não acreditar nisto vai ter problemas no futuro. Portanto, é preciso prepará-los para realidades multiculturais, multiconhecimento, multilinguística, etc. É por isso que o Sr. Reitor diz que temos que ter internacionalização. A UM é extremamente internacionalizada, para além daquilo que é o intercâmbio, a mobilidade de estudantes, aquilo que designamos por Erasmus. A UM tem muitos projectos de colaboração, quer na prestação de serviços, quer na oferta de formação avançada, quer na investigação numa série de países bastante vasta, desde logo, com a Europa, e depois com os EUA, aliás, a UM é um parceiro bastante activo no programa MIT Portugal. Temos, também, uma presença nas economias emergentes. A UM está a avançar com novas parcerias com Brasil, também Angola e Moçambique, também tem contactos com a China – através do Instituto Confúcio – e a UM está atenta a essas novas realidades.
A minha participação nesta matéria é aquilo que designamos como internacionalização não-académica, que significa parcerias com empresas, com fundações ou mesmo com universidades estrangeiras, numa perspectiva de negócio.
Vemos, diariamente, uma Universidade em mutação. Há muito que se fala da nova sede da AAUM. O reitor da UM disse que o projecto iria avançar até ao final do último ano, o que ainda não aconteceu. Como está todo este processo?
Este é um período de muita incerteza quanto a investimentos. De facto, a UM tem ideias para o reordenamento e envolvente dos campi. Nessas ideias está previsto o edificio para albergar a AAUM e também os grupos culturais e outras entidades, ou seja, um conjunto de actividades e estruturas que giram em torno da AAUM. Existe o projecto que terá uma componente privada e, neste momento, não estão ainda garantidas condições para avançar para este investimento. Mas não quer dizer que não vai avançar. Estamos numa fase muito quente das negociações e, por isso, não quero avançar muito mais.
Há algum local específico?
Dentro ou fora do campus, mas imediatamente adjacente ao campus de Gualtar.
Mas alguma localização exacta...
Faz tudo parte da negociação. Não há aqui nenhum segredo especial. Recordo apenas que este é um período muito difícil para investimentos. Estamos a trabalhar arduamente nesta altura sobre esta matéria e desejamos um bom resultado.
Será possível algum avanço até ao final do ano cívil?
Não consigo fazer promessas. Apenas refiro que estamos a trabalhar arduamente.
Estas negociações envolvem a Quinta dos Peões?
É uma possibilidade. Envolve, como parceiro, a Câmara Municipal de Braga (CMB). Face a esta incerteza, há um conjunto de cenários possivel.
Mas já há muito se fala na Quinta dos Peões como sendo um possível “tampão” da universidade em relação ao meio envolvente...
Os terrenos não são da UM, são de uma empresa privada. E nada avançou até agora porque a empresa em causa não quis investir. E o diálogo que temos mantido visa encontrar um ponto de equilíbrio entre interesses do privado, as regras estabelecidas pela CMB e os desejos da UM para ter uma boa vizinhança e para ter algo que, não sendo parte da Universidade, (não fosse investimento público) fosse uma boa complementariedade para a UM.
Tem a ver com o Plano de Pormenor da CMB?
A CMB está, e esteve desde o início, interessada em que as vontades e os desejos da UM estejam, também, salvaguardados. E temos mantido esse diálogo tranquilo e frutuoso e acreditamos que existe um espaço de oportunidade para as três entidades.
Entendemos também que a Sul é a entrada principal do campus. Achamos interessante encontrar um ponto de equilíbrio [entre as três entidades] nesse local.
José Teixeira da DST, defendeu um projecto de cidade a 15 anos apostando no centro histórico, com algumas âncoras universitárias em locais no centro. Afirmou que era importante que a Universidade se virasse mais para a cidade e a influenciasse mais. Referiu que era importante que a sede da AAUM e a própria RUM fossem para o centro. Como vê este desejo?
Vejo com bons olhos. Partilho de muitas dessas ideias. A cidade de Braga, não sendo uma cidade muito grande, criou algumas âncoras que, consideradas isoladamente, são interessantes (estádio, campus, shoppings). Cada uma dessas âncoras tem uma missão e vai cumprindo.
O problema da cidade é como se articulam essas âncoras. A UM tem de se virar para cidade, mas a cidade também tem de se virar para a Universidade. Algo que vai ter de acontecer na cidade de Braga, se a cidade se quiser tornar-se mais competitiva, é perceber que, se continuarmos a estabelecer âncoras que estão longe do centro, matamos o centro da cidade. Achamos que o centro devia ter mais vida. Por isso achamos que o futuro da cidade deverá estar no intangível. A cidade de Braga é, ao contrário do que se diz, um bom exemplo do ponto de vista do tangível (a cidade incorpora um conjunto de boas práticas que algumas cidades do Mundo procuram atingir a nível da sua área pedonal, o centro equilibrado, consegue-se circular bem na cidade de Braga). Esse foi o programa infraestrutural que a cidade cumpriu. Acho é que há outro programa a cumprir... Aquele que define a competitividade das cidades e isso está no intangível. Acho que a cidade de Braga deve apostar em cinco dimensões, as dimensões do sucesso: tem de ser uma cidade mais Intelectual; Inovadora; Conectada - Braga tem de explorar a relação com aeroporto, por exemplo -; Sustentável; Autêntica, ou seja, incorporar, no quadro de competitividade, marcos da sua autenticidade, à semelhança do que se faz, por exemplo, na Semana Santa.
Estas cinco dimensões podem definir a competitividade da cidade daqui para a frente. Eu não vejo praticamente ninguém, e muito menos os pretendentes à CMB, a terem um diálogo nessa linha, a perceberem que temos de fazer a obra, mas o valor dessa dimensão do investimento já é muito pouco contributiva para valorizar a cidade.
Fazer só obra pode começar a “desacrescentar” algo à cidade. Note-se que o excessivo investimento feito no país já retira competitividade ao país. Já é mais do que tempo para projectarmos a competitividade e relevância de Braga como um nó de desenvolvimento no país, num paradigma diferente.
Esses cinco pontos que enuncia podiam constar num programa eleitoral de um candidato à CMB em 2013...
Podiam ser de um qualquer candidato. Foi público que nas últimas duas eleições recebi convites e fui contactado para ter um papel mais ou menos relevante nos projectos da CMB. Entendi que não era o momento, tinha outros projecto na reitoria e na minha vida profissional. Nunca tive essa pretensão, mas, ultimamente, essa questão tem sido colocada novamente.
As eleições autárquicas ocorrem daqui a dois anos e, embora existam alguns candidatos pré-anunciados ou auto-anunciados, acho que ainda não é tempo para falar disso. É importante, isso sim, fazer algo para a CMB e para a cidade de Braga.
Afasta a possibilidade de assumir uma candidatura à CMB ou de integrar alguma lista?
Não afasto a possibilidade de praticamente nada, desde que seja um contributo ou algo sério. Mas isso não está na minha cabeça de forma aguda.
Não faz sentido neste momento pensar, com seriedade, na possibilidade de se incorporar uma candidatura porque faltam dois anos. A situação do país não está fácil, os próprios partidos ainda não definiram os seus candidatos.
Como observador exetrno, a nível local, parece-me que, no caso do PS, é sabido que vai haver eleições para a concelhia. Parece-me que o partido está a fazer o seu percurso de eleição do candidato. Do lado da coligação “Juntos por Braga”, não percebo como é que, havendo ainda eleições para a concelhia do PSD, como se pode definir o candidato. É claro que uma nova concelhia poderia definir outro candidato para Braga.
Mas acha que António Braga ou Ricardo Rio estão a agir mal ao darem este passo?
Quem sou eu para julgar? Acho que, se são candidatos pelo partido, deve ser o partido a apresentar o candidato.
Poderá assim integrar uma candidatura independente?
Não sei. Nem sequer sei se algum dia integrarei alguma candidatura. A minha área de especialidade são as cidades, sou um planeador de cidades. Isto significa que, em determinado momento, se a sociedade pensar que posso dar alguma coloboração, como o fez no passado quando endereçou convites, terei de considerar a hipótese de dar à sociedade aquilo que ela investiu em mim. Naturalmente não vou excluir nenhuma possibilidade.
Sou independente. Não sou filiado em nenhum partido político. Todos os cenários são possíveis e nenhum cenário é possível. Se calhar, um dia destes, terei de pensar nisso, muito seriamente.
O ano de 2013 pode ser um ano de mudança, tanto na Reitoria, como na cidade de Braga. Está mais inclinado para assumir um projecto em qual dos palcos?
Neste momento, o meu compromisso assumido com a academia e com o reitor é aquilo que desempenho actualmente.
Daí para a frente não tenho nada pensado.
Em termos de reitoria, não penso nada. A reitoria tem um líder, um Reitor no qual eu acredito, tem uma equipa na qual me integro e estou muito feliz e portanto não penso além disso.
Acho que a UM tem um excelente Reitor e o que eu desejaria é que ele lá continuasse.
Daniel Vieira da Silva
Alexandre Praça
Académico

Ultrapassado que está metade do mandato de António Cunha à frente da reitoria da Universidade do Minho, o reitor faz um balanço positivo do que foi feito e abordou temas quentes na actualidade universitária.

