A Silicolife, uma recente spin-off da UM, foi a vencedora do concurso nacional de empreendedorismo “Atreve-te 2010”. A empresa responsável pelo projecto vencedor, que foi oficialmente criada em Abril de 2010 com o apoio do Liftoff da AAUM, é constituída por nove elementos, entre coordenadores e ex-alunos da UM. O ACADÉMICO esteve, esta semana, à conversa com Simão Soares, CEO e um dos fundadores da Silicolife.A Silicolife venceu o “Atreve-te 2010”. A primeira pergunta que se impõe é: em que se baseava o vosso projecto?
O projecto que apresentámos no “Atreve-te 2010” é, em termos gerais, um resumo do plano de negócios que estamos a seguir e, com grande agrado, vimos que foi reconhecido. A empresa já tinha entrado em funcionamento em Abril de 2010 e o que apresentámos ao júri do concurso foram as ideias gerais da empresa: o que nós fazemos, qual é o nosso mercado, o que é que achamos que é uma nova oportunidade de negócio.
Porque é que concorreram ao “Atreve-te 2010”?
Começámos a pensar na ideia da Silicolife no fim de 2009, e, durante esse período e até termos arrancado com empresa, fomos testando a ideia em alguns concursos.
Durante o ano de 2010 fomos tendo o apoio do Gabinete do Empreendedor da Associação Académica da Universidade do Minho (AAUM) - Liftoff. Sendo a AAUM um dos organizadores do “Atreve-te 2010”, fomos desafiados por eles a concorrer.
Quando concorreram, tinham expectativas de ganhar?
Tínhamos algum material pronto de outros concursos. Mas, com a nossa experiência passada, também sabíamos que é muito difícil prever se iríamos ganhar ou não, porque as ideias são todas muito diferentes e, também, o júri e o background das pessoas que o constituem é muito diferente.
Em que condições nasceu a Silicolife?
A Silicolife é um projecto que parte de antigos alunos do Mestrado de Bioinformática e de professores desse Mestrado. Éramos, também, investigadores do Grupo de bioinformatica e biologia de sistemas da Universidade do Minho e tínhamos já alguma experiência a trabalhar com parceiros industriais e percebemos que havia uma oportunidade de tornar isto um projecto empresarial e perceber as soluções de uma maneira mais profissional. Então, foi nascendo a vontade de tornar isto uma empresa.
O que faz, então, a Silicolife?
De uma maneira muito geral, a Silicolife é uma empresa que cria soluções de Biologia computacional para as Ciências da Vida. Trocando por miúdos, trabalhamos para o mercado da biotecnologia industrial, que está por trás dos mais diferentes aspectos da nossa vida, desde o alimentar aos biofármacos e biocombustíveis. Em todas essas indústrias, o que está por trás na produção são microrganismos optimizados para atingir esses fins industriais. Essa é uma área que tem uma investigação muito custosa e que demora muito tempo. Para desenvolver um cosmético são mais de quatro anos, para desenvolver um biofármaco são dez a quinze anos e as fases desses processos são binárias, ou seja, pode-se atingir uma fase bastante avançada do desenvolvimento do projecto e ele depois falhar. Nós fazemos modelos dos microrganismos que se pretendem utilizar e, utilizando os nossos algoritmos, ajudamos a perceber em que condições se deve operar para termos uma produção máxima. Uma analogia que gostamos de fazer é o GPS: neste caso, os nossos mapas são os modelos dos microrganismos, que nós criamos, e as ferramentas para o GPS encurtar o caminho são os nossos algoritmos, que ajudam a identificar, por exemplo, como maximizar a produção de um determinado composto de natureza industrial. Toda a estratégia da empresa foi pensada numa visão global, porque não fazia sentido fazer isto para Portugal. Ainda assim fazemos, para Portugal, tratamento de dados de origem biológica e alguns projectos na área da Saúde.
Esta era uma área muito “verde” em Portugal?
Somos a primeira empresa de Bioinformática em Portugal e em termos de Biologia de Sistemas, da parte da modelação e da optimização, somos das poucas também a nível mundial.
Por quantas pessoas é constituída a Silicolife?
Ao todo, somos nove colaboradores. Aqui, a funcionar a tempo inteiro, estão três pessoas. Depois, temos pessoas que vão entrando e saindo, consoante o número de projectos que vamos tendo. Os fundadores são pessoas que pertencem ou que estavam relacionadas com o Centro de Investigação do Departamento de Informática e com o Centro de Investigação do Departamento de Engenharia Biológica. Temos pessoas das Ciências da Vida e pessoas das Ciências da Computação e, ao falarmos todas estas linguagens, o que conseguimos fazer é perceber, na realidade, qual é o problema do cliente e disponibilizar uma solução que se adequa ao que ele pretende.
Falaste, há pouco, do apoio do Liftoff. Foi importante, para vocês, esse apoio?
Estávamos nas instalações que pertenciam à AAUM, ou seja, até darmos o salto para estas novas instalações, estávamos num berço que tinha sido disponibilizado pelo Liftoff. Este gabinete do empreendedor funcionou, também, como uma ajuda para saber destas oportunidades, como o “Atreve-te 2010”.
Em relação ao prémio de 30 mil euros que receberam no “Atreve-te 2010”, já há um destino para o dinheiro?
A nossa estratégia como empresa sempre foi muito sustentada. A empresa é totalmente detida pelos seus fundadores e o investimento inicial também foi todo suportado por eles. Em Abril de 2010, vimos que já tínhamos um conjunto de projectos que nos permitia sustentar a empresa durante algum tempo e, então, decidimos meter mão à obra e arrancar com a empresa oficialmente e desenvolver esses projectos. O prémio do “Atreve-te” vem alavancar este processo e torná-lo mais rápido. Esse dinheiro tem sido investido na procura de novos clientes e, também, de suportar o desenvolvimento de algumas ferramentas internas.
E que projectos têm em mãos?
De momento, estamos a trabalhar com duas das maiores empresas da indústria química mundial e estamos a ajudá-los a desenvolver novos processos, utilizando os nossos modelos e os nossos algoritmos para, quando eles forem para o laboratório, já terem um guia racional para o fazer, porque o processo típico nesta indústria é muito tentativa/erro. Nós damos-lhes, portanto, um guia baseado em métodos racionais, em conhecimento matemático.
Os alunos poderão, futuramente, efectuar estágios aqui?
Somos parceiros industriais em alguns projectos de investigação, nomeadamente num que foi iniciado pela União Europeia, em que estamos com a maioria das instituições a fazer investigação nesta área e poderá, então, haver a oportunidade para pessoas que estejam na área da Bioinformática e das Ciências da Computação de estagiar. Poderá ser uma ideia a colocar em prática no futuro.
Esta passagem para o SpinPark abre algumas portas? Sentes que vai ser um impulso ainda maior para a Silicolife?
Esta mudança vem dar outro tipo de condições à empresa, vem comprovar que todo o trabalho que temos vindo a fazer tem sido no bom sentido. Agora temos que elevar mais a fasquia.
Sentes que estão a ser dadas, por parte das universidades e dos actores políticos, as condições para que se fomente o empreendedorismo em Portugal?
Acho que, da parte das universidades, há um movimento de apoio a estas iniciativas. Somos um exemplo disso. O melhor a fazer é, se as pessoas têm uma ideia e têm a vontade de arriscar, é pegar na ideia, pô-la num papel, sujeitá-la a algumas provas, falar com outras pessoas, para as refinar até que atinjam o estado de maturação e pensar, então, o que é que vamos fazer com elas, mais a sério. Estes projectos acabam por desafiar os próprios autores.
Dado o paradigma em que o país se encontra, achas que as pessoas já não querem assumir os riscos de serem empreendedoras, numa altura complicada como esta?
Talvez. Mas talvez seja esta a altura mais indicada para isso. É uma altura de crise, em que as pessoas têm menos a perder. Mas passa-se exactamente o contrário.
As pessoas estão cada vez mais agarradas à estabilidade e arrancar com este tipo de projectos requer a saída da nossa zona de conforto.
Apesar de “pequena” e recente e com perspectivas de ascensão, já se pode considerar que a Silicolife é um exemplo de sucesso de empreendedorismo que sai das universidades. Que conselhos é que achas que podias dar a quem está com uma ideia na mão?
Acho que se resume à persistência. E o segredo de todos os projectos é ter uma boa equipa por trás. Falem com as pessoas que acham que são as mais capazes e desafiem-nas para entrar, para que, juntos, construam algo ainda mais forte.
Dentro da própria UM, de onde saíram… Sentiram apoio neste projecto, por exemplo, por parte dos próprios docentes?
Somos um caso muito particular, porque esta ideia tinha os nossos antigos orientadores científicos envolvidos e fomos desafiados por eles a tornar isto um caso prático.
Mas penso que há condições para as pessoas agirem.
Não há uma fórmula mágica e também não há muito que as universidades possam fazer.
Pode haver cadeiras que dêem bases para o que deves fazer quando estás numa empresa, quando estás a coordenar um projecto…
Não partilhas, então, da opinião que se deve criar uma cadeira de empreendedorismo transversal a todos os cursos?
Isso é uma excelente ideia. Essa cadeira poderá dar algumas bases, poderá puxar pelas pessoas para que elas concretizem os seus projectos, mas o desafio está sempre na pessoa.
Hoje em dia, estás confortável no lugar em que estás?
Não estou confortável, mas é esse o objectivo, é não estarmos confortáveis e querermos sempre mais e é esse o sentimento que nos ajuda a crescer, mas acho que fiz uma excelente opção em arriscar neste projecto.
Qual é o próximo passo da Silicolife?
O nosso próximo passo é a continuação deste. E sempre com a internacionalização no nosso horizonte.
































































































Ultrapassado que está metade do mandato de António Cunha à frente da reitoria da Universidade do Minho, o reitor faz um balanço positivo do que foi feito e abordou temas quentes na actualidade universitária.

