José Palmeira é director do Curso de Ciência Política, criado este ano na Universidade do Minho, e que vem, de acordo com o docente, “preencher uma lacuna” da própria instituição. Tendo deixado o Jornalismo para trás, José Palmeira optou pela carreira académica há quinze anos, tendo-se licenciado em Relações Internacionais e doutorado em Ciência Política, pela UM. Em conversa com o ACADÉMICO, o docente falou do funcionamento do curso e das questões políticas que têm afectado a actualidade internacional.Em relação ao curso de Ciência Política da UM, é o primeiro ano em que está a funcionar. Como está a correr esta experiência?
De facto, o curso começou neste ano. Não que a UM não tivesse interesse em tê-lo aberto mais cedo, mas devido a restrições do Ministério, que não permitia que a Universidade aumentasse o número de vagas, houve necessidade de aguardar até ao presente ano lectivo. O curso começou a funcionar com 25 vagas, mas com as transferências tem, agora, 30 alunos, estando a funcionar no horário pós-laboral. A UM, além de se preocupar com a formação de cidadãos para terem uma participação à escala global, sempre pretendeu ter um papel à escala regional, e, para isso, tinha que se preocupar com a formação de elites políticas. O curso vem, portanto, preencher essa lacuna. Um licenciado em Ciência Política pode exercer a sua actividade numa escala muito variável.
Mas como caracteriza um aluno que frequenta Ciência Politica, tem termos de média de idades? Por exemplo, são mais velhos e estão à procura de um segundo curso?
O facto de ser em pós-laboral determina que o perfil do aluno seja um pouco mais velho, e, em muitos casos, esse aluno já trabalha. O aluno vê na Ciência Politica uma forma de preparação para a cidadania, que proporcione uma bagagem para que, em termos laborais, a pessoa tenha sucesso, assim como permitir o compreender o mundo em que vivemos. O curso de Ciência Politica, tal como o de Relações Internacionais, dá essa formação. Depois é mais especializado em termos políticos porque permite uma compreensão do fenómeno político, o que facilita a própria participação em diferentes patamares.
Não há muitas pessoas a ocupar posições políticas que tenham um curso em Ciências Políticas…
Por um lado isso é positivo, porque não fazia sentido que houvesse um curso para formar políticos. É bom que os políticos tenham as mais diversas formações. Aqui não pretendemos propriamente formar políticos, mas sim formar especialistas em política, politólogos. É evidente que não nos interessa só pessoas que compreendam o fenómeno, mas também pessoas que actuem de uma forma positiva. Tenho alunos que estão ligados a juntas de freguesias, que tentam valorizar a sua formação na área da Política.
É possível para um politólogo ser objectivo e isento? Ou as suas ideias políticas podem condicionar a sua opinião?
Nunca me preocupei muito com o facto de a minha expressa opinião ter filiação partidária, porque a capacidade de analisar os factos não tem a ver com isso. A nossa opinião é sempre condicionada por um conjunto de factores. Eu incentivo muito os alunos a terem participação política, porque se há uma queixa generalizada relativamente à Política, é bom que haja uma maior participação. Não tenho, de maneira nenhuma, uma visão negativa da Política. Às vezes transmite-se, muito pela comunicação social, o lado negativo, mas procuro sublinhar que o que se passa não é apenas o que chega ao nosso conhecimento.
Alguns países, no mundo árabe, têm sofrido agitação e violência nos últimos dias. Como é que tem encarado esta situação que não é assim tão distante?
A própria União Europeia tem acordos de vizinhança com alguns países do norte de África, da bacia mediterrânica. E não é só questão de vizinhança mas também de dependência. Basta ver que agora, em relação à Líbia, existe dependência do petróleo, uma vez que é o segundo fornecedor de petróleo de Portugal. O ocidente costuma colocar-se do lado da liberdade e da democracia, aplicando aquele que é o modelo ocidental, que é pluripartidário, de eleições livres e liberdade de expressão, etc. Depois há um período em que há eleições, a população escolhe de uma forma livre e quem tem legitimidade exerce poder e que é, no caso da Argélia, uma grande hipocrisia na política. A democracia foi aplicada, mas o partido que ganhou - Frente Islâmica da Salvação (FIS) - não exerceu poder porque os militares argelinos não deixaram. O ocidente esfregou as mãos de contentamento porque via na FIS uma ameaça, devido às suas supostas ligações ao fundamentalismo islâmico. O ocidente quer a democracia, quando a esta produz algo que lhe agrade. E no caso desses países, muitas vezes faz-se um apelo a que haja democracia, mas se em democracia ganharem os grupos políticos fundamentalistas, qual será a posição ocidental? Até agora, o ocidente, nomeadamente os EUA, suportaram o regime egípcio, o da Líbia…
Kaddaffi, na Líbia, tem alertado para o perigo da Al-Qaeda. Será um perigo real, ou é o próprio a querer chamar o ocidente à razão,
estando só a fazer “bluff”?
O perigo é real nesta medida: a Al-Qaeda tem como primeiro alvo os estados árabes que não alinham com as suas posições. Um dos primeiros atentados da Al-Qaeda foi precisamente em Marrocos e teve a ver com isso. Isto também pode ser uma estratégia de Kaddaffi, no sentido de procurar demonstrar ao ocidente que será pior a emenda que o soneto. Nos países árabes existe uma situação diferente do modelo ocidental, porque o estado não está consolidado. Na Líbia isso é ainda mais evidente porque existe um modelo tribal, uma base étnica muito forte, como sucede, por exemplo, na Guiné-Bissau. Os países têm partidos de base étnica e, havendo uma etnia maioritária, sempre que houver eleições aquela etnia ganha. Isso condiciona a democracia. Quem pertence a uma etnia minoritária nunca tem a expectativa de ganhar.
O que pode acontecer nas próximas horas? Poderá haver o desmembramento de um país frágil?
Na Líbia não existem propriamente estruturas estatais. No Egipto, pelo menos as forças armadas estão numa estrutura e, portanto, quando houver crise, uma queda do poder político, as forças armadas são capazes de fazer a transição. No caso da Líbia isso não é possível e, portanto, pode haver o desmembramento. Um desmembramento é complexo porque temos de pensar nos interesses da população local em primeiro lugar. Não sabemos, até que ponto um desmembramento não é favorável aos interesses da população. Assim também não sabemos até que ponto não haverá uma perda do controlo sobre a produção petrolífera e de gás natural. Temos que ver que o petróleo é uma fonte de receita para o estado e que o mesmo a deve aplicar em benefício da população, o que pelos vistos não tem acontecido. Assim, Kaddafi anunciou aumentos dos salários em cerca de 150%, como forma de arrefecer os ânimos, até porque os exemplos anteriores da Tunísia e do Egipto não lhe são favoráveis.
Apesar de não sabermos o que estes países vão enfrentar no futuro, dá para perceber uma mudança clara de paradigma. Como é que o mundo pode encarar o que se passa nos países árabes?
Não há dúvida de uma coisa: há um descontentamento em relação aos governantes. Mas não basta esse descontentamento, não basta manifestar-se e derrubar o poder instituído. Isso é a primeira fase e a mais simples. Depois é preciso passar à fase seguinte que é da reconstrução.
Nada nos garante que no Egipto, o pluripartidarismo vai existir nas próximas eleições… Aliás, nem precisamos de ir para esses países. Verifiquemos aquilo que se passava na Europa e, nomeadamente em Portugal, no período salazarista. Havia uma oposição a Salazar que convergia toda num objectivo: acabar com o regime autoritário para implementar uma democracia. Mas uma vez instalada a democracia, as posições dos partidos eram diferentes quanto ao modelo a instituir. A seguir ao 25 de Abril, houve o 25 de Novembro. Quem mais se opôs a Salazar foi o Partido Comunista Português, que tinha um modelo diferente dos outros partidos. Até se baseava em estados em que não havia democracia, como a URSS. O que significa que quem faz oposição e quer derrubar está de acordo. Depois, esse denominador comum desaparece. Isso é mais problemático nos países do norte de África, em que não existe muitas vezes consistência institucional. Existem partidos ligados a interesses específicos ou a grupos étnicos. E, neste momento, quem é que consegue ter alguma relevância? Quem estiver organizado, que, nesses países, é a chamada Irmandade Muçulmana, que tem a capacidade de preencher um vazio.
É previsível, neste momento, que esta revolta possa alastrar a outros países daquela área?
É possível. Tanto que já existem movimentos no Iémen e Bahrein. Não há dúvida que isto é um fenómeno de bola de neve. Não se fala nisso, mas não sei se não poderá significar que alguns países europeus, face a algum descontentamento com a crise económica e social, não poderão enfrentar um fenómeno de contestação generalizada aos partidos políticos, que não será igual dado que existe legitimação de quem está no poder.
O Expresso vai lançar uns telegramas confidenciais, aos quais teve acesso do Wikileaks. O que é que se pode esperar e que opinião é que tem em relação a estes dados confidenciais que envolvem o Ministério dos Negócios Estrangeiros, em Portugal?
Posso vir a mudar de opinião, mas julgo que o fenómeno wikileaks não vai ter um impacto muito grande. A não ser que haja revelações muito diferentes das que têm surgido. Isto veio revelar que as diplomacias são todas muito parecidas: se é verdade que há uma diplomacia que explora as fragilidades dos actores políticos de determinado país, também é verdade que o país que é alvo disso também tem uma prática semelhante em relação a países terceiros. Há uma praxis muito parecida.
Então, qual é aqui a novidade? A novidade é isso vir a público. Se não houver revelações que envolvam questões de natureza judicial ou que tenham a ver com práticas menos lícitas, penso que não será muito relevante. Pontualmente poderá ter um efeito, mas a tendência vai ser para o esbater.
Não irá afectar os alicerces da sociedade?
Eu julgo que não. Vivemos numa sociedade onde a espionagem existe e não queremos saber como se faz, mas sabemos que existe. Mas quando nos mostram, ficamos incomodados. A overdose acaba por diluir o efeito. Os telegramas vão sair uns a seguir aos outros, que quase não há tempo para reagir a um porque já saiu outro. Acabam por se eliminar o efeito uns aos outros.
Ao fim de quinze anos longe do Jornalismo, sente saudades?
Quando se passa pelo jornalismo com a intensidade com que eu passei parece que nunca deixámos de ser jornalistas, parece que nunca desligamos. Quanto à prática do Jornalismo, confesso que não sinto grandes saudades, porque deixei numa altura em que este estava em grandes mudanças: assisti a várias fases do Jornalismo, quer tecnológicas, pois comecei com a máquina de escrever, fui para o telex e acabei com o computador, quer da maneira de fazer Jornalismo. Comecei a fazer Jornalismo relatando o que se tinha passado no dia anterior e acabei, sobretudo, a prever o que se ia passar no dia a seguir. Passei de uma situação de informação para uma situação de especulação. Isto nota-se, principalmente nos jornais, que têm de ter uma grande tiragem para justificar a publicidade. Percebo que, hoje, as pessoas tenham necessidade de antecipar os acontecimentos. Digamos que vivemos num Mundo onde a celeridade é muito grande. Por isso é que temos graves problemas, como por exemplo, na Justiça, que é demasiado lenta para aquilo que é a necessidade das pessoas. O Jornalismo acelera ainda mais este fenómeno. Hoje, com a rapidez a que o Mundo corre, os governos andam sempre a reboque, são sempre reactivos. Aos políticos exige-se uma capacidade muito superior à que se exigia antes, daí ser injusto comparar o agora com o de antes. A realidade era diferente e, muitas vezes, fazemos o julgamento das pessoas do presente como se o mundo de hoje fosse o de há 20 ou 30 anos. Não qualifico o Jornalismo, hoje, de melhor ou pior, mas de diferente.
Falava, há pouco, da influência do Jornalismo na dinâmica da sociedade, nomeadamente ao moldar os políticos. É o Jornalismo o principal responsável pela forma como eles actuam?
Em Portugal, a comunicação social tem uma grande influência e a prova disso é que é mais fácil um órgão de comunicação social deitar abaixo um ministro do que a oposição.
Temos o caso do semanário O Independente, que foi o grande opositor ao governo de Cavaco Silva. Não há dúvida que a influência da comunicação social em Portugal é forte e condiciona a vida política. Os media funcionam como contra-poder e, através dos seus especialistas, detectam lacunas legislativas. Não existe, pois, em Portugal, uma preocupação por parte dos partidos em ter um conjunto de trabalhadores qualificados que estudem bem as propostas de leis dos partidos.
Há uma mudança de paradigma, que diz respeito às redes sociais, que funcionam como um motor da sociedade. Tiveram as redes sociais um papel especial no modo como o jornalismo se faz hoje em dia?
Reconheço que as redes sociais têm um papel importante, pois é sempre importante o cidadão expressar a sua opinião e constatar que há outros cidadãos que comungam da mesma opinião. É preciso ter algum cuidado porque corre-se o risco de a banalização acabar por matar o efeito positivo. É, ainda, muito importante o papel do órgão de comunicação como o filtro, com a capacidade de seleccionar e de estabelecer a ligação entre cidadão e poder político. A comunicação social é, também, um actor político muito importante.
Falando de Política, será possível algum dia haver democracia sem partidos?
Possível é. Aliás, já existiu democracia sem partidos. A democracia é sobretudo um tipo de regime, em que quem exerce o poder, exerce-o com a legitimidade do voto e essa escolha pode basear-se apenas em personalidades. A crise dos partidos que tanto se fala tem a ver com a crise das ideologias. A partir da queda do muro de Berlim, em 1989, o fim da URSS, em 1991, e a República Popular da China a passar a alinhar no sistema económico capitalista, o debate ideológico quase que terminou. O que agora divide os partidos, ao invés da ideologia, é a personalidade. Hoje, com algumas excepções (PCP), o debate dos partidos faz-se com alguma personalização ou em termos de aspectos que são menores.







Ultrapassado que está metade do mandato de António Cunha à frente da reitoria da Universidade do Minho, o reitor faz um balanço positivo do que foi feito e abordou temas quentes na actualidade universitária.

